CASTRO — A Chácara Ressaca, em Castrolanda, área rural de Castro (PR), produz atualmente 6.900 litros de leite por dia, com 175 vacas, depois de mais de 40 anos de expansão planejada. A propriedade é administrada por Vitalino Wacherski e seus três filhos e integra a Rota do Leite, iniciativa que apresenta propriedades da região dos Campos Gerais durante a programação oficial da Agroleite, feira anual da Cooperativa Castrolanda.
Quando começou na atividade, Wacherski mantinha 32 vacas holandesas em lactação, com produção diária de 200 litros. O produtor atribui parte da trajetória ao planejamento dos investimentos e afirma que evita financiamentos. “Faço os investimentos na propriedade com recursos próprios. Nunca fiz financiamento, porque tenho medo de dívida”, disse. A única exceção foram as placas de energia solar, parceladas diretamente com o fornecedor.
Controle financeiro e divisão de tarefas
O produtor é responsável pela área financeira e toma as decisões de expansão em conjunto com os filhos. A família acompanha custos, produção e capacidade de compra antes de assumir novos compromissos. Os registros são mantidos tanto em sistemas informatizados quanto em anotações no papel.
Lariane Wacherski cuida da sanidade e da genética do rebanho. Larissa responde pela higiene e pela limpeza, além de participar das inseminações. Marçal administra a produção da alimentação dos animais. Em 40 hectares, a família cultiva milho e azevém destinados à silagem e ao pré-secado. A produção própria reduz a necessidade de comprar fubá e ração, embora a nutrição ainda represente 71,84% do custo da fazenda.
A ordenha mecanizada ocorre duas vezes ao dia. As vacas em produção ficam em sistema free stall, que conta com um robô para empurrar os alimentos. A instalação aumentou em 1,5 litro a produção por animal. O próximo projeto é levar o sistema para novilhas, vacas prenhas e animais destinados à inseminação.
Indicadores do rebanho
A produção média é de cerca de 40 litros por vaca ao dia, conforme Lariane. Para comparação, a Embrapa Gado de Leite calcula uma faixa de 30 a 35 litros diários por animal em propriedades intensivas, com confinamento e maior aplicação de capital.
A contagem de células somáticas é de 90.000/mL, enquanto a contagem padrão em placas fica abaixo de 1.000 UFC/mL. Os índices são usados para avaliar a saúde do rebanho e o padrão da ordenha. O desempenho também gera bonificação paga pela indústria.
A família investiu recentemente na ampliação da sala de ordenha, em um barracão para armazenar produtos de nutrição, em um silo de ração e em novos espaços para escritório e sala de medicamentos. As instalações seguem normas de boas práticas.
Cenário da pecuária leiteira
Para Glauco Carvalho, economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, produtores que controlam os custos e investem em tecnologia encontram melhores condições para permanecer na atividade. Ele afirma que o controle leiteiro, feito pela medição periódica da produção de cada vaca, ajuda a avaliar a produtividade e ajustar o manejo.
O número de fazendas de bovinocultura leiteira no Brasil caiu de 874.500, em 2006, para 634.500, em 2017, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa, apontam aproximadamente 513.000 propriedades em 2025, uma redução de 41,3% em quase 20 anos.
Entre as propriedades que continuam na atividade, a produtividade média subiu de 1.105 litros por vaca ao ano, em 2000, para 2.362 litros, em 2024. A produção nacional passou de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros no mesmo intervalo, conforme dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE compilados pelo CILeite.
Carvalho relaciona esse movimento à busca por escala e competitividade. Ele estima que entre 70% e 80% dos produtores de leite brasileiros sejam pequenos e avalia que muitos ainda podem ampliar o volume produzido para diluir custos fixos.
Christiano Nascif, diretor da consultoria Labor Rural, classifica o modelo dos Wacherski como conservador, mas ressalta que nem todos os produtores conseguem investir sem crédito. Para ele, a taxa Selic de 14% ao ano dificulta o pagamento de empréstimos.
Nascif aponta como elementos importantes para a atividade a qualidade da pastagem e do volumoso, o número de vacas em lactação por área, a genética e a reprodução. Ele também recomenda a manutenção de capital de giro e o acompanhamento conjunto da produtividade, dos custos e do fluxo financeiro.
Castro e Carambeí lideram a produção de leite, com quase 800 milhões de litros ao ano, conforme a PPM do IBGE. O veterinário Gilberto Foltran, consultor da Elanco Saúde Animal que atende a família, afirma que o melhoramento genético iniciado na região contribuiu para os níveis atuais de produtividade e qualidade. Ele também relaciona a sanidade do rebanho ao manejo, à melhora da defesa dos animais e à redução da incidência de doenças.



