PINDAMONHANGABA — A Fazenda São Pedro da Mantiqueira, em São Paulo, registrou remoção de carbono superior às emissões de gases de efeito estufa. O balanço foi elaborado pela pesquisadora Susian Christian Martins e verificado de forma independente pela KPMG.
O inventário considera emissões relacionadas ao uso de combustível, à atividade do rebanho, à aplicação de fertilizantes e ao consumo de energia elétrica. Do outro lado da conta estão as remoções, principalmente o carbono levado pelas raízes das plantas para o solo.
Quando as remoções superam as emissões, o resultado é negativo e a propriedade funciona como um sumidouro de carbono. O cálculo da Agropecuária São Pedro da Mantiqueira Ltda., do Grupo Roncador, corresponde à safra 2023/2024 e segue o GHG Protocol Agropecuário.
Diferentes formas de medir o carbono
A remoção de carbono no solo pode ser estimada por diferentes níveis de precisão. O Tier 2 usa fatores nacionais ajustados ao bioma e às condições do Brasil. O Tier 3 aplica parâmetros locais, calibrados para a região e para a propriedade. Já o Tier 3 Métrico utiliza amostras de solo analisadas em laboratório pelo método CHN.
De acordo com a descrição técnica do inventário, quanto mais os dados se baseiam em medições próprias da fazenda, maior tende a ser o sequestro reconhecido. Os cálculos consideram os gases CO₂, CH₄ e N₂O, convertidos em CO₂-equivalente pelos potenciais de aquecimento global do IPCC (AR5).
A análise foi relacionada ao Sistema Regenerativo Integrado Roncador. O documento afirma que os fatores padronizados são conservadores e não conseguem considerar completamente o efeito desse sistema sobre o ecossistema e o armazenamento de carbono no solo.
Carbono efêmero entra em uma conta separada
Além do estoque de carbono que permanece no solo, o trabalho apresenta o chamado carbono efêmero. Trata-se do carbono fixado pelas plantas e movimentado ao longo de um ano, parte do qual retorna relativamente rápido à atmosfera.
Na pecuária, são considerados apenas os componentes que permanecem temporariamente armazenados, como o tecido corporal do animal, a biomassa de microrganismos do solo e a parcela do esterco que se estabiliza. O carbono que volta à atmosfera pela respiração ou que já aparece na conta do metano fica fora dessa estimativa.
O cálculo incluiu o carbono que vira produto e deixa a fazenda, como o grão de soja e a massa corporal do boi, além do material que se humifica no solo. Reservas de milho, silagem, sorgo e snaplage mantidas na propriedade não entraram na conta. Por isso, o fluxo temporário efetivamente manejado pode ser maior que o número contabilizado.
O carbono efêmero não faz parte do balanço de gases de efeito estufa verificado. Ele representa um fluxo anual temporário, e não um estoque permanente.
Medição abaixo dos 30 centímetros
A Fazenda São Pedro da Mantiqueira também mediu o solo até 2 metros de profundidade, enquanto os inventários de carbono normalmente consideram apenas os primeiros 30 centímetros.
No talhão analisado, a camada entre 30 centímetros e 2 metros armazenou 330,67 tCO2eq/ha. Nos primeiros 30 centímetros, o estoque foi de 267,08 tCO2eq/ha. A comparação indica que uma parcela maior do carbono medido estava abaixo da profundidade considerada pela régua padrão.
O produtor rural Pelerson Penido Dalla Vecchia relata observar raízes vivas além de 2 metros e o escurecimento gradual do solo em profundidade. A hipótese apresentada é que parte do carbono acumulado em solos tropicais profundos pode ficar fora dos inventários convencionais.
O próprio trabalho ressalta que essa etapa não integra o inventário verificado e deve ser tratada como hipótese de investigação. A questão colocada é se o carbono profundo também aumenta sob manejo adequado.
A metodologia técnica incluiu amostras de campo e análises CHN conduzidas por Susian Christian Martins. Para a estimativa do carbono retido na pecuária, foram considerados estudos e sistemas técnicos sobre exigências nutricionais, fermentação ruminal, emissão de metano e partição de nutrientes.



