SÃO PAULO — A permanência da água na várzea do rio Tietê levou moradores de bairros do extremo leste de São Paulo a organizar barcos, distribuir marmitas e buscar formas próprias de deixar as casas. Nesta segunda-feira (14), áreas como União de Vila Nova, Jardim Pantanal, Jardim Helena, Vila Itaim e Vila Seabra ainda tinham ruas e residências alagadas após a chuva do fim da semana passada.
Na Vila Seabra, Clarice Ferreira, líder comunitária, afirmou que algumas casas enfrentavam entre 80 centímetros e 1 metro de água. O nível havia recuado por pouco tempo, mas voltou a subir. Vizinhos conseguiram um barco para levar alimentos às famílias que não conseguiam sair. “O apoio aqui que estamos tendo é nós entre nós mesmos”, disse Clarice.
Ela relatou não ter visto equipes da Defesa Civil ou da Subprefeitura no trecho onde mora. Também afirmou que o ponto de atendimento destinado aos moradores ficava a cerca de três quilômetros da comunidade. Adriana Santos, que estava com duas crianças e com o pé machucado, disse ter recebido a promessa de que uma equipe chegaria às 9 horas, mas precisou sair para buscar leite.
Chuva acima da média e perdas nas casas
No domingo (13), o Tietê estava acima da cota de extravasamento em pontos da zona leste. O nível chegou a 71 centímetros acima da cota de inundação no Jardim Helena e a 91 centímetros em Itaim Biacica. No Jardim Pantanal, moradores relataram água próxima de 1 metro dentro das residências; na Vila Seabra, algumas famílias usaram canoas.
Até o início da tarde de segunda-feira, a capital havia acumulado 227,8 milímetros de chuva em setembro, volume 245,2% acima da média histórica de 66 milímetros. O Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas informou que esse já era o setembro mais chuvoso dos últimos 32 anos e alertou para solo encharcado e risco de deslizamentos.
Marinalva da Silva Menezes, de 56 anos, deixou a casa na estrada da Biacica depois que a água atingiu móveis e eletrodomésticos. Geladeira, fogão, máquina de lavar e guarda-roupa ficaram submersos. Ela disse que já havia enfrentado cheias entre 2009 e 2010 e no ano passado, mas não tinha visto tanta água dentro da residência.
Prefeitura informa ações e moradores questionam barragem
A Prefeitura de São Paulo informou que a Guarda Civil Metropolitana Ambiental atua com viaturas, botes e moto aquática, além de auxiliar na retirada de moradores. A administração também citou limpeza de bueiros, galerias e córregos e o Plano Recupera Pantanal.
De acordo com a gestão municipal, são investidos R$ 59,8 milhões em novas galerias de drenagem e na pavimentação de 10,4 quilômetros de vias. Também estão em construção cerca de 845 metros de muro de gabião às margens do Tietê.
Desde dezembro de 2025, 789 famílias foram retiradas de áreas consideradas de risco pelo programa. A Prefeitura informou ainda que 1.051 famílias, ou 3.460 pessoas, foram cadastradas para receber cestas básicas, kits de higiene e limpeza, colchões e outros insumos. Mais de 11 mil itens haviam sido distribuídos. Segundo a administração, 519 famílias recebem auxílio-aluguel e 270 foram indenizadas.
A operação da barragem da Penha voltou a ser contestada pelos moradores. Clarice afirmou que comportas foram abertas no domingo e que a água começou a baixar, mas depois foram fechadas novamente. O governo estadual declarou que as seis comportas são fechadas quando o nível do Tietê a jusante chega à cota de 720 metros. A justificativa é controlar a vazão em direção à região central durante chuvas intensas.
A própria resposta do Estado afirma que, com as comportas fechadas, a água ocupa temporariamente a várzea do Tietê, mas nega que a operação provoque as enchentes. O vereador Alessandro Guedes (PT), que presidiu a CPI do Pantanal na Câmara Municipal, discorda. Ele afirmou que o efeito de remanso pode interferir na drenagem dos bairros e informou que seu departamento jurídico avalia medidas para cobrar a abertura controlada das comportas.
O governo estadual também informou a retirada de 371,9 mil metros cúbicos de sedimentos do Tietê na área do Jardim Pantanal, com investimento de R$ 55,8 milhões. Até o fechamento, não havia balanço consolidado sobre o total de casas inundadas, famílias que deixaram suas residências, pessoas em abrigos públicos ou moradores atendidos nos bairros da várzea.



