Duas pessoas morreram, três ficaram feridas e três estão desaparecidas após o temporal que atingiu o Rio Grande do Sul. A Defesa Civil estadual informou que 146 municípios registraram danos e que mais de 527 mil pessoas foram afetadas. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantém o alerta para risco de enchentes, deslizamentos e novos impactos provocados pela chuva.
Em Pelotas, um homem morreu depois de colidir com um fio elétrico que atravessava uma rua enquanto conduzia uma motocicleta. O município concentra o maior número de pessoas afetadas: mais de 336 mil.
Em Caxias do Sul, uma enxurrada arrastou um veículo ocupado por uma criança de 4 anos, uma adolescente de 13 e uma mulher de 43. As três seguem desaparecidas. A Defesa Civil também registrou uma morte na cidade, mas o boletim não informa qual vítima foi localizada. Outro desaparecido é um homem que sumiu enquanto limpava uma galeria pluvial. O Corpo de Bombeiros continua as buscas.
Danos e alerta meteorológico
O balanço estadual aponta 413 pessoas desabrigadas e 2.732 desalojadas. Foram contabilizadas 21 casas destruídas, 389 danificadas, 1.978 destelhadas e 110 alagadas. Também houve danos em 38 escolas, 17 estabelecimentos de saúde e outros 37 prédios públicos ou privados.
O alerta vermelho do Inmet abrangeu 699 municípios do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Válido das 0h às 23h59 de segunda-feira (21/09), o aviso previa chuva acima de 60 mm por hora ou superior a 100 mm em um dia, ventos acima de 100 km/h e queda de granizo. Para a Região Metropolitana de Porto Alegre e Caxias do Sul, a previsão indicava ventos de até 120 km/h e chuva de até 100 mm por hora.
Santa Vitória do Palmar teve 30 mil pessoas afetadas e chegou a ficar sem energia elétrica. Em Viamão, mais de 15 mil pessoas foram atingidas e 47 casas ficaram destelhadas. Nova Santa Rita registrou 400 casas sem telhado, o maior número do estado. Rio Grande teve 250 casas destelhadas, enquanto Eldorado do Sul contabilizou três casas destruídas e 130 destelhadas.
O governador Eduardo Leite informou que determinou o envio de telhas para famílias de baixa renda afetadas e acionou a distribuidora de energia para priorizar hospitais e estações de tratamento de água. Operadoras de telefonia também foram chamadas para reparar torres e antenas derrubadas.
Risco de enchentes na Serra Gaúcha
O risco principal mudou dos ventos para as cheias e os deslizamentos. A meteorologista Estael Sias afirmou que chuvas de 100 mm a 150 mm atingiram a Serra Gaúcha e os Campos de Cima da Serra, onde nascem rios que apresentam elevação rápida.
As bacias dos rios Taquari, Caí e dos Sinos estão subindo. A chuva deveria continuar entre terça-feira e o início de quarta-feira, aumentando o risco de queda de barreiras e deslizamentos. Eduardo Leite informou que a Defesa Civil registrou cerca de 200 mm nas cabeceiras da bacia Taquari-Antas e que projeções foram compartilhadas com prefeitos de Encantado, Estrela, Lajeado e Santa Tereza para orientar a retirada preventiva de famílias em áreas de risco.
Sias afirmou que os modelos europeu e americano indicaram, desde a sexta-feira anterior, uma área extensa com ventos acima de 100 km/h. A meteorologista também explicou que o Rio Grande do Sul não possui radar de vento, o que faz com que as medições dependam de estações meteorológicas de superfície.
Segundo ela, alertas emitidos com 24 horas de antecedência acertam mais de 90% das vezes. Os avisos de 5 a 10 dias servem como pré-alerta, enquanto a mobilização para proteção da população ocorre com alertas emitidos entre 24 e 48 horas.
El Niño e preparação
Para Sias, o El Niño contribui para a sequência de eventos extremos no Sul. A meteorologista Josélia Pegorim explicou que o fenômeno redireciona uma corrente de ar quente e úmido para o Paraguai, o sul do Brasil e o norte da Argentina, aumentando o contraste entre massas de ar e favorecendo ciclones extratropicais e tempestades severas.
Pegorim ressaltou que a causa imediata de todos os eventos de setembro não é necessariamente o El Niño. Na primeira quinzena do mês, seis frentes frias atingiram o centro-sul do Brasil em 15 dias. Segundo ela, esse episódio esteve ligado à fase negativa da Oscilação Antártica, embora essa condição seja mais frequente em anos de El Niño.
A tragédia de maio de 2024 deixou 185 mortos e afetou mais de 2,4 milhões de pessoas em quase 480 municípios. Sias avaliou que ainda não houve tempo para uma revisão estrutural completa. Ela apontou a necessidade de mais meteorologistas e hidrólogos voltados ao monitoramento e à comunicação dos alertas, além de maior clareza para a população sobre como agir ao receber uma mensagem de emergência.



