Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O radar da região e do país
Brasil

Estudo mostra como o cérebro alterna entre vozes em ambientes barulhentos

Pesquisadores identificaram que sinais ligados a duas vozes podem se sobrepor por até dois segundos durante a mudança de atenção.

A capacidade de acompanhar uma conversa em meio a várias vozes depende de operações complexas do cérebro. Além de priorizar o interlocutor escolhido, o sistema auditivo filtra outros diálogos e ruídos que chegam simultaneamente aos ouvidos.

A investigação sobre esse processo ganhou força na década de 1950, quando o cientista cognitivo britânico Colin Cherry formulou a expressão “efeito coquetel”. Nos primeiros experimentos, voluntários ouviam dois discursos ao mesmo tempo, um em cada ouvido, e precisavam repetir apenas um deles. Eles conseguiam acompanhar com precisão a mensagem selecionada, mas retinham poucas informações sobre a outra.

Como a atenção é organizada

Nos últimos 15 anos, os estudos passaram a reproduzir situações mais próximas da audição cotidiana, com tecnologias capazes de acompanhar a atividade cerebral enquanto a fala acontece. Uma das técnicas utilizadas é a eletroencefalografia (EEG), que emprega sensores instalados em uma espécie de touca para registrar mudanças rápidas na atividade elétrica de grupos de neurônios, com precisão de milissegundos.

Em um estudo de 2014, neurocientistas observaram que, em até 200 milissegundos depois que uma pessoa começa a falar, o cérebro dá prioridade à conversa escolhida. Esse processo aparece com maior intensidade em áreas secundárias, como o giro temporal superior, associado à organização dos sons em uma fala compreensível.

O resultado indica que a atenção não apenas aumenta a presença da voz selecionada. Ela também contribui para interpretar as palavras enquanto outras conversas e sons de fundo são filtrados.

A troca entre interlocutores

A atenção auditiva, porém, não permanece fixa. Em uma situação cotidiana, uma pessoa pode deixar de acompanhar um amigo para prestar atenção a alguém que chama seu nome ou a um ruído repentino. Um estudo realizado por pesquisadores com colegas do Eriksholm Research Centre, na Dinamarca, analisou o que acontece durante essa mudança.

Os resultados indicaram que o cérebro não interrompe completamente o processamento de uma voz antes de começar a acompanhar outra. Durante um período de um a dois segundos, sinais neurais associados aos dois interlocutores se sobrepõem. Assim, a sintonia com a nova voz começa antes que o processamento da anterior seja encerrado por completo.

Esse funcionamento pode ajudar a explicar como a atenção se desloca entre diferentes sons sem uma ruptura perceptível. A manutenção temporária de informações sobre o interlocutor anterior também pode facilitar a continuidade da conversa durante a transição.

Possíveis aplicações

Os achados podem contribuir para o desenvolvimento de aparelhos auditivos capazes de acompanhar mudanças na atenção do usuário. Atualmente, equipamentos tradicionais costumam priorizar sons vindos da frente, o que limita seu funcionamento em algumas situações.

Com métodos aprimorados de decodificação da atenção, esses dispositivos poderiam realçar a voz que concentra o interesse do usuário e alternar entre interlocutores quase em tempo real, conforme a atenção se modifica.

A abordagem também pode ser usada para comparar estratégias de atenção entre indivíduos, sobretudo em ambientes ruidosos, e relacioná-las ao esforço mental necessário para acompanhar e compreender a fala.

Sara Carta recebeu recursos da Fundação William Demant e da Taighde Éireann - Research Ireland. Giovanni Di Liberto tem financiamento da William Demant Fonden e da Taighde Éireann - Research Ireland, além de apoio da Research Ireland no ADAPT, centro do Trinity College Dublin voltado à tecnologia de conteúdo digital impulsionada por inteligência artificial.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.