Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Retomada dos combates em Tigré amplia tensões entre Etiópia e países vizinhos

A ofensiva rebelde reacende disputas na Etiópia e eleva o risco de conexão entre conflitos no Nordeste da África e no Mar Vermelho.

Retomada dos combates em Tigré amplia tensões entre Etiópia e países vizinhos

A retomada dos combates em Tigré, no norte da Etiópia, ocorre em meio a alianças armadas instáveis e disputas que envolvem países vizinhos. A Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF) passou a integrar uma coalizão com outros seis grupos armados etíopes que pretendem derrubar o primeiro-ministro Abiy Ahmed. Entre os integrantes está o movimento Fano, da região de Amhara, que enfrentou a TPLF na guerra anterior.

A formação não representa uma força militar unificada. Os grupos mantêm objetivos políticos e interesses territoriais diferentes, mas a aliança abre várias frentes de combate para o governo etíope. Nesta quarta-feira (23/09), forças rebeldes tomaram três aeroportos sob controle federal. Também foram registrados confrontos em Amhara e Afar.

A ofensiva ameaça o Acordo de Pretória, firmado em 2022 entre o governo federal e a TPLF para encerrar formalmente a guerra em Tigré. O conflito anterior ocorreu entre 2020 e 2022, matou centenas de milhares de pessoas e deslocou milhões, segundo estimativas.

Fronteiras e rotas estratégicas

Afar fica no nordeste da Etiópia, na fronteira com Eritreia e Djibuti. A região abriga o principal corredor de transporte entre a Etiópia, que não tem saída para o mar, e Djibuti. Por essa rota passa grande parte do comércio exterior etíope, o que dá aos combates na área importância para além da disputa local.

A Eritreia participou da guerra anterior ao lado das forças federais etíopes. Desde então, as relações entre Adis Abeba e Asmara se deterioraram, enquanto as ambições etíopes de obter acesso ao Mar Vermelho aumentaram as preocupações de segurança da Eritreia. A Etiópia acusa o país vizinho de apoiar grupos armados contrários ao governo; Asmara nega.

Martin Plaut, especialista na região, avalia que a Eritreia pode acabar envolvida. “A guerra certamente pode se agravar, e a Eritreia pode se envolver”, afirmou. O nível de participação direta do país, porém, continua difícil de verificar de forma independente.

Possíveis conexões com o Sudão

A guerra no Sudão começou em 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas pelo general Mohammed Hamdan Dagalo. O conflito atraiu potências regionais e produziu uma das maiores crises humanitárias do mundo.

Plaut afirma que Etiópia e Eritreia já participam indiretamente da disputa, apoiando lados opostos. Ele aponta evidências de uma base no oeste etíope que forneceria apoio e treinamento a combatentes da RSF. A alegação não foi verificada de forma independente.

Os Emirados Árabes Unidos são acusados de apoiar a RSF, o que negam. Eritreia, Egito e Arábia Saudita são apontados por Plaut como apoiadores das Forças Armadas do Sudão. Na avaliação dele, um confronto direto entre Etiópia e Eritreia poderia estimular as forças rivais sudanesas a explorar a situação e pressionar a fronteira oriental do Sudão.

Jalale Getachew Birru, analista sênior para a África Oriental no Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), afirma que a crise etíope não deve ser analisada separadamente. “Ele envolve também os países vizinhos e está se manifestando em toda a região”, disse.

A posição da União Africana

A União Africana manifestou preocupação com a possibilidade de uma nova guerra. Em comunicado divulgado em 23 de setembro, o presidente da Comissão da organização, Mahmoud Ali Youssouf, alertou que novas alianças políticas e militares podem desfazer avanços obtidos desde 2020.

A entidade pediu o fim imediato de medidas capazes de elevar as tensões, a retomada de negociações diretas com base no Acordo de Pretória e contenção dos países vizinhos. Também encarregou o ex-presidente da Nigéria Olusegun Obasanjo, representante especial para a região, de apoiar os esforços diplomáticos.

O risco regional também passa pelo estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e ao oceano Índico. Eritreia e Djibuti ficam na margem ocidental; o Iêmen, na oriental. A guerra no Iêmen mostrou como a insegurança nessa área pode interromper o transporte marítimo internacional e atrair potências externas.

O porto de Assab e a posição da Eritreia dão ao país importância estratégica além de Tigré. Uma piora significativa das relações entre Etiópia e Eritreia poderia afetar a segurança no Mar Vermelho. Ainda assim, não há evidências de uma única aliança militar ligando Tigré ao golfo Pérsico, e uma guerra regional não é inevitável.

Os grupos etíopes têm interesses concorrentes, a Eritreia pode evitar uma intervenção direta e as facções sudanesas mantêm prioridades próprias. Para Plaut, porém, a ausência de uma estrutura comum de comando não impede que os conflitos se conectem. Ele também alertou para o risco humanitário, lembrando que 600 mil pessoas morreram no último conflito em Tigré.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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