NOVA DÉLHI — A Índia aposta em comércio, cooperação monetária e agricultura para produzir avanços na 18ª cúpula do Brics, que será realizada neste fim de semana. O encontro reunirá representantes de um bloco ampliado, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos, além da Arábia Saudita, cujo status permanece ambíguo.
A reunião também terá peso pelas conversas bilaterais previstas. Vladimir Putin e Narendra Modi devem se encontrar nesta sexta-feira, enquanto a presença esperada de Xi Jinping pode permitir uma conversa direta entre os líderes da China e da Índia, países que mantêm tensões persistentes. Putin e Xi não participaram da cúpula anterior, realizada no Brasil. A participação do presidente chinês ainda não foi formalmente confirmada por Pequim.
Slogan e equilíbrio diplomático
Como anfitriã, a Índia escolheu o lema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”. A formulação retoma as iniciais dos cinco integrantes originais e, ao mesmo tempo, associa o bloco a objetivos que também podem ser apoiados pelos novos membros.
Para Mihaela Papa, diretora do Brics Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a escolha ajuda a apresentar o acrônimo como uma missão comum, e não apenas como referência aos países fundadores. Já Sushant Singh, professor de estudos do Sul Asiático na Universidade de Yale, avalia que a formulação ampla expressa a tentativa indiana de manter o grupo neutro e discreto.
A posição da Índia é marcada pelo interesse em preservar relações com diferentes campos. O país mantém laços de defesa com os Estados Unidos e relações comerciais com o Ocidente, mas também ocupa uma posição relevante nas discussões do Brics. Papa considera que essa capacidade de diálogo pode favorecer a cooperação prática e a reforma da governança global, sem transformar o grupo em uma aliança explicitamente organizada contra outros países.
Divergências dentro do bloco
A ampliação aumentou a dificuldade de construir consensos. Os integrantes reúnem quase metade da população mundial e cerca de 40% do PIB global, mas mantêm diferenças políticas e relações bilaterais tensas. Entre os participantes, há mais autocracias do que democracias, segundo a análise apresentada no debate sobre o futuro do grupo.
A presença de representantes de países rivais também será observada. Masoud Pezeshkian participará pela parte iraniana, enquanto Mohamed bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos, deve enviar representantes. A Arábia Saudita também é esperada, embora sua condição dentro do Brics continue sem definição clara.
No ano passado, o grupo defendeu mudanças na governança global, incluindo maior representação no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial. Também se posicionou contra tarifas comerciais e criticou a polarização da ordem internacional. Para Singh, porém, a cúpula deve gerar poucos resultados concretos: “será algo muito, muito limitado”.
Possíveis resultados
As discussões devem tratar do aumento do comércio entre os membros, de alternativas financeiras para operações com moedas e de segurança alimentar. A Organização Mundial do Comércio aparece como uma área com maior possibilidade de entendimento, já que a Índia tende a apoiar uma ação coordenada nesse campo.
A reforma da governança global continuará no centro das conversas, mas a avaliação é que o bloco pode avançar mais em instituições e temas nos quais exista maior convergência. Entre eles estão comércio, agricultura e cooperação monetária. Ainda assim, a influência crescente da China e a política tarifária do governo Trump são apontadas como fatores que tornam mais difíceis até mesmo os objetivos limitados do Brics.



