A pressão do governo de Donald Trump sobre o Brasil pode produzir efeito contrário ao pretendido, na avaliação de Peter Birle, diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do país no BTI, índice de democracia da Fundação Bertelsmann. Para ele, tarifas, sanções e revogação de vistos formam uma estratégia voltada a favorecer um governo Bolsonaro, mas tendem a estimular resistência no país.
Birle afirma que ainda não é possível saber qual será o resultado da interferência no Brasil. Ele compara o cenário à atuação dos Estados Unidos na Argentina, onde a pressão em favor de Javier Milei teria alcançado o objetivo de Washington. Na avaliação do cientista político, a política americana em relação aos dois países não ocorre com o mesmo grau de abertura, mas é agressiva nos dois casos.
A disputa pela influência regional
O especialista também relaciona o momento brasileiro a episódios históricos da América Latina. Em 1946, os Estados Unidos tentaram impedir a ascensão de Juan Perón na Argentina por meio do embaixador Spruille Braden. A reação nacionalista expressa no lema “Braden ou Perón” ajudou Perón a vencer, segundo Birle.
Para ele, o contraste com o episódio argentino é que, na situação atual, a interferência de Trump em favor de Milei não encontrou resistência suficiente. Antes das eleições legislativas de outubro de 2025, o governo americano teria condicionado ajuda financeira a uma vitória de partidos próximos ao presidente argentino.
Birle avalia que o Brasil tem uma compreensão própria sobre seu lugar no mundo e sobre o tratamento que deve receber. Por isso, considera que uma abordagem construtiva poderia produzir mais resultado do que medidas de pressão. O cientista político diz ainda que a Europa não deve responder da mesma forma, pois busca preservar uma relação positiva com o governo americano.
Na análise dele, a América Latina se tornou um espaço político mais alinhado à direita, o que dificulta a retomada da liderança regional exercida pelo Brasil nos governos Lula 1 e 2. Birle afirma que Lula recuperou o país como ator internacional de perfil sólido, mas não conseguiu reconstruir o regionalismo latino-americano da primeira década do século 21.
Eleição com foco em economia e segurança
Na avaliação mais recente do BTI mencionada por Birle, a democracia brasileira melhorou quando comparados os dois primeiros anos do governo Lula aos dois últimos anos de Bolsonaro. O cientista político cita uma situação institucional mais estável e avanços socioeconômicos, além da sobrevivência das instituições democráticas ao governo Bolsonaro.
O ambiente eleitoral, porém, estaria diferente do observado em 2022. Naquele momento, o principal tema era a continuidade do bolsonarismo e o risco à democracia. Agora, as questões dominantes são a economia, a segurança pública e o crime organizado.
Birle afirma que quase 45% dizem que nunca votariam em Lula. Ele reconhece avanços econômicos e a queda da pobreza e da pobreza extrema, mas observa que os juros continuam altos, com a Selic em 14%, e que a situação cotidiana ainda é difícil para muitas pessoas. Na opinião dele, a percepção da população neste ano pode pesar mais do que os indicadores macroeconômicos.
As pesquisas citadas pelo cientista político apontariam para um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, com vantagem do atual presidente, mas sem garantia de vitória. Ele também considera que a presença de mais candidatos à direita do que à esquerda pode dificultar o desempenho de Lula.
Risco de mudanças no segundo mandato
Birle diz que a forma de Flávio Bolsonaro se apresentar é diferente da do pai. O candidato se mostra como conservador, mas menos extremo, e não teria o mesmo carisma. Na avaliação do especialista, setores conservadores alemães poderiam conviver com um eventual governo de Flávio, enquanto a extrema-direita da AfD estaria claramente a favor de Bolsonaro caso decidisse se posicionar.
O cientista político alerta, no entanto, para o que poderia ocorrer depois de uma eventual vitória. A experiência internacional, segundo ele, indica que mudanças mais radicais costumam aparecer no segundo mandato. Birle cita a Hungria e o próprio Trump como exemplos dessa dinâmica.
Para o Brasil, ele considera um risco a possibilidade de Flávio adotar medidas que hoje não anuncia para tentar parecer mais moderado. Birle afirma que um governo do candidato poderia promover uma anistia, não apenas para ele, mas não detalha quais seriam os demais beneficiados.
Sobre o Supremo Tribunal Federal, o especialista reconhece a importância da Corte na defesa da democracia durante o governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo, considera compreensível a crítica à politização do tribunal e diz que uma postura mais moderada poderia ser aconselhável.



