A possibilidade de um El Niño de intensidade muito forte adiciona risco à safra 2026/27, que também será plantada sob crédito restrito, custos elevados e endividamento acumulado. As previsões indicam possibilidade de veranicos durante o enchimento dos grãos no Centro-Oeste e de chuvas acima da média na Região Sul.
Em Mato Grosso, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima que a área de soja fique praticamente estável, em 13,04 milhões de hectares. A produção, porém, pode recuar 5%, para 48,88 milhões de toneladas, dependendo da intensidade do fenômeno e da irregularidade das chuvas. O crédito problemático no estado chegou a R$ 21,79 bilhões entre janeiro e abril deste ano, equivalente a 18,22% da carteira de crédito rural — em 2022, o índice era de 2,08%.
Clima muda decisões no campo
Marcos Feldhaus, produtor em Mato Grosso, cultiva 30.000 hectares em Sinop, Cláudia, União do Sul, Tabaporã e Marcelândia. Ele afirma que o fenômeno pode ser mais intenso que o de 2015 e teme uma perda expressiva de produtividade. Ainda assim, conseguiu reduzir em 8% os custos de preparação da safra, principalmente por encontrar preços melhores para adubos e sementes.
No Piauí, Karl Milla cultiva soja em Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí. Na safra 2015/16, marcada pelo El Niño, sua região produziu, em média, 17 sacas por hectare. Hoje, as fazendas alcançam 60 sacas por hectare, e o produtor afirma que áreas mais preparadas, com maior quantidade de palhada e fertilidade, podem ajudar a enfrentar uma eventual repetição das condições climáticas daquele período.
Pedro Crispim, que planta 500 hectares em Goiatins (TO), calcula aumento de 20% nos custos do ciclo 2026/27 e já travou 80% das despesas. Ele avalia usar sementes mais tolerantes à seca, mesmo com possível redução de 20% no rendimento. Também considera deixar parte dos talhões fora do cultivo de soja ou integrá-los à pecuária.
Na Fazenda Santa Cândida, em Goiás, Renata Ferguson complementa a adubação química e mineral com compostos orgânicos feitos de cama de frango, esterco bovino, bagaço de cana e dejetos suínos. A propriedade aplica 300 toneladas por hectare e mantém plantas de cobertura para aumentar a palhada, reter umidade e reduzir a temperatura do solo.
Dívidas reduzem margem de manobra
Em Tupanciretã, no Rio Grande do Sul, seis decretos de emergência foram emitidos desde 2020: cinco relacionados à seca e um às chuvas intensas. Após perdas sucessivas, o produtor Michel Rodrigues planeja reduzir a área de soja, cortar gastos com adubação e comprar insumos por meio de operações de barter ou parcelamento.
Em Caçapava do Sul, Diego Mariani cultiva 840 hectares, dos quais 710 são arrendados. Depois de conseguir pagar apenas 30% dos financiamentos buscados em bancos e na cooperativa, ele afirma que terá acesso mínimo ao crédito no ciclo 2026/27. Para obter insumos, recorreu ao barter com a Coocal e a Cotrisul e pretende operar com o menor orçamento possível.
A Cotrisul tem 2.500 associados e faturou R$ 2 bilhões em 2025. Em Cachoeira do Sul, quase 20 máquinas agrícolas foram entregues por produtores para quitar dívidas. A cooperativa passou a oferecer crédito, insumos, consultoria financeira e orientação técnica voltada à redução de custos.
A inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas chegou a 8,8% em julho de 2026. Os pedidos de recuperação judicial entre produtores e empresas do agronegócio somaram quase 2.000 em 2025. No Rio Grande do Sul, os financiamentos em atraso representam R$ 42 bilhões de uma carteira de R$ 111 bilhões.
Seguro rural e custos pressionam o planejamento
Metade do orçamento do seguro rural foi bloqueada, e a expectativa do mercado é de proteção subsidiada para apenas 2,7% da área agrícola brasileira, cerca de 3 milhões de hectares. Em 2021, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural atendeu 14 milhões de hectares, equivalentes a 16,3% da área plantada.
Os custos também avançaram. O gasto com a produção de soja aumentou cerca de cinco sacas por hectare e pode alcançar 75 sacas por hectare em algumas regiões, acima da produtividade média de 65 sacas por hectare registrada em Goiás em 2025/26. Na área atendida pela Comigo, mais de 60% dos fertilizantes foram vendidos aos cooperados em abril.
Apesar das dificuldades financeiras, o setor alcançou resultados expressivos. Em 2025, o Valor Adicionado da Agropecuária ao PIB cresceu 11,7%, para R$ 775,3 bilhões. A produção brasileira de soja chegou a 180,46 milhões de toneladas em 2025/26, enquanto o volume total de grãos alcançou 360,8 milhões de toneladas. Para a próxima lavoura, a projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é de 186 milhões de toneladas de soja.
As orientações técnicas citadas para reduzir riscos incluem analisar o solo, usar plantas de cobertura, escalonar a semeadura, escolher sementes adequadas ao regime de chuvas e aplicar apenas os insumos necessários. A recomendação financeira é combinar metas de produtividade, orçamento, avaliação das condições de financiamento e maior integração com fornecedores, clientes e cooperativas.



