Crianças entre 5 e 7 anos passam por mudanças importantes na forma de pensar, se relacionar e perceber a própria autonomia. Nessa fase, começam a questionar mais, negociar, argumentar e testar possibilidades. Muitas vezes sabem quais são as regras, mas ainda não conseguem cumpri-las de maneira constante.
A expressão “puberdade do dente mole” sintetiza esse período de transição. A criança amplia o pensamento, reconhece combinados e entende boa parte do que os adultos esperam dela. Ainda assim, emoção, pensamento e autorregulação continuam em processo de integração. Daniel J. Siegel aborda esse desenvolvimento, enquanto Daniel Becker destaca a importância de considerar a etapa vivida pela criança antes de classificar seu comportamento como um problema. A pedagogia dos setênios, inspirada por Rudolf Steiner, também identifica uma transformação importante por volta dos sete anos.
Escuta não elimina os limites
A criança precisa ser ouvida, respeitada e acolhida. Pode dizer que está brava, contrariada ou que gostaria de outra coisa. Isso, porém, não significa que o adulto deva alterar toda decisão diante da frustração. “Eu entendo que você não gostou, mas isso precisa ser assim” resume uma postura que combina consideração pelos sentimentos e firmeza na condução.
Limites podem ser estabelecidos sem gritos, humilhações ou ameaças. O respeito não exige satisfazer todos os desejos da criança, assim como ouvi-la não significa transferir a ela decisões para as quais ainda não tem recursos. Em determinadas situações, decidir por ela também é uma forma de proteção.
Na Disciplina Positiva, Jane Nelsen defende que gentileza e firmeza caminhem juntas. Essa combinação permite que a criança enfrente frustrações sem interpretar cada negativa como rompimento do vínculo.
Autonomia é construída gradualmente
A autonomia não equivale a entregar todas as decisões de uma vez. Ela se desenvolve conforme a criança consegue ocupar novos espaços. Em algumas situações, pode decidir; em outras, participa de uma escolha conjunta; em determinados momentos, a decisão ainda cabe ao adulto.
A experiência da vela ajuda a explicar essa construção. O vento não pode ser controlado, mas é possível observar sua intensidade, ajustar a vela, mudar de posição e tomar decisões. Da mesma forma, adultos não controlam os desejos, a raiva, a frustração ou os impulsos da criança. Podem, contudo, ajudá-la a compreender o que fazer com essas experiências.
Ensinar a velejar não é simplesmente colocar o leme nas mãos de alguém. É permitir que a criança conheça o barco, perceba o vento e entenda os efeitos de cada movimento. Na educação, isso significa oferecer participação e espaço de escolha sem retirar do adulto a responsabilidade pela condução.
O tempo de aprender
Limites são incorporados nas pequenas experiências cotidianas. Primeiro, o adulto sustenta por ela; depois, sustenta junto com ela; mais tarde, a criança consegue sustentar sozinha. Esse processo exige repetição e não se completa apenas porque uma regra foi explicada uma vez.
A educação respeitosa não elimina a frustração. Crianças podem ouvir não, discordar de uma decisão e ficar bravas. O papel do adulto é manter o contorno com presença e consistência, sem confundir firmeza com rigidez ou medo.
Crescer e aprender a se autorregular leva tempo. Como em uma velejada, a criança começa acompanhada, experimenta, erra e tenta novamente. Aos poucos, passa a tomar decisões com mais independência. Não entregar o leme antes da hora não significa duvidar de sua capacidade, mas respeitar o período necessário para que ela seja construída.
Beatriz Martins Perpetuo é educadora, coordenadora pedagógica e orientadora parental, com mais de 30 anos de experiência na área e trajetória no ensino bilíngue.



