O atentado que matou o príncipe Francisco Ferdinando, em Sarajevo, e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 são apresentados como marcos de mudanças na relação das sociedades modernas com o tempo, o espaço e o risco.
Em 28 de junho de 1914, às 10h45min, o herdeiro do Império Austro-Húngaro foi morto a tiros pelo sérvio Gavrilo Princip. O ataque, cometido contra o príncipe e sua esposa, ocorreu em meio a décadas de rivalidades entre povos europeus. Em julho daquele ano, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Rússia, Áustria-Hungria e Império Otomano mobilizaram seus aparatos militares na chamada Grande Guerra.
Sarajevo voltou a ocupar um lugar central entre 1992 e 1995, durante o conflito entre bósnios e sérvios. O período é relacionado a um ciclo de guerras que também inclui a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Nesse contexto, as ameaças ainda eram associadas a agentes identificáveis, com nomes registrados na história.
Em 11 de setembro de 2001, às 08h46min, um Boeing 767 atingiu um dos edifícios do World Trade Center, em Nova York. O ataque deu início a uma sequência de ações terroristas e colocou em xeque a posição dos Estados Unidos, que haviam saído fortalecidos do fim da Guerra Fria. O episódio também abalou a expectativa de que a democracia liberal representaria o desfecho da trajetória histórica.
A análise recorre ao trabalho do professor Hans U. Gumbrecht, especialmente ao livro Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. Para Gumbrecht, “Entre o futuro e o passado, o presente se estreita até ser um breve momento de transição, já não perceptível”. A ideia é usada para descrever a perda de centralidade das promessas de progresso e a ampliação do presente como dimensão dominante da experiência social.
Os ataques de 11 de setembro são associados ainda à fragmentação das perspectivas e a um período prolongado de conflitos no Afeganistão. O texto também relaciona esse novo espaço temporal à crise de 2008 e à crise pandêmica, descritas como manifestações de uma transformação mais ampla.
O sociólogo Ulrich Beck define essa mudança nos seguintes termos: “a metamorfose implica uma transformação muito mais radical, em que velhas certezas da sociedade moderna estão desaparecendo e algo inteiramente novo emerge”. Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas variável e passa a integrar de forma constante a vida social. As ameaças podem assumir formas diversas, como ataques terroristas, mísseis disparados por drones, crises hipotecárias e vírus mutantes.



