Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O radar da região e do país
Economia

Crédito rural recua enquanto produtores enfrentam barreiras para reorganizar débitos

Exigências adicionais, mudanças nas garantias e cobrança de entrada dificultam renegociações em meio à queda do financiamento agrícola.

Crédito rural recua enquanto produtores enfrentam barreiras para reorganizar débitos

A redução do crédito rural e o aumento das operações em atraso ampliaram as dificuldades dos produtores que tentam reorganizar dívidas com instituições financeiras. A renegociação tem sido acompanhada de pedidos de novos documentos, mudanças nas garantias e pagamento de uma parcela inicial para que o acordo seja concluído.

Alexandre Mendes, presidente da Associação Brasileira de Direito Agrário e Agronegócio (Juragro), afirmou que algumas instituições estão conduzindo essas operações como se fossem novos contratos de crédito. “Muitas das instituições financeiras estão tratando essa reorganização trazida pela MP como uma nova operação de crédito”, disse.

Financiamento menor e mais operações em atraso

Levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) indica que a área financiada para custeio agropecuário no Brasil caiu de 34 milhões de hectares, em julho de 2025, para 25 milhões de hectares em julho de 2026. A retração superou 25% em 12 meses. No Rio Grande do Sul, a queda se aproximou de 30%.

Soja, milho e bovinos, que respondem juntos por quase 90% da área financiada com crédito rural no país, tiveram redução. O recuo foi de 25,8% na soja, 27,4% no milho e 25,5% nos bovinos.

No Rio Grande do Sul, o trigo registrou queda de 52% na área financiada. A retração chegou a 35% na soja e a 32% no arroz.

Ao mesmo tempo, aumentou a participação de operações em atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação. No Brasil, elas passaram de cerca de 12% para 23,5% da carteira de crédito rural nos últimos dois anos. No Rio Grande do Sul, o percentual subiu de aproximadamente 28% para mais de 41%. Isso significa que mais de quatro em cada dez operações da carteira estadual estão em uma dessas situações.

Entrada e garantias dificultam acordos

Segundo Mendes, os produtores também têm encontrado exigências para alterar as garantias oferecidas nas operações. Outra condição apontada é o pagamento de uma parcela como entrada, o que pode impedir a renegociação para quem já está endividado.

O presidente da Juragro afirmou que parte dos produtores não consegue sequer arcar com o laudo técnico exigido pela medida provisória. “Muitos deles não estão conseguindo realizar nem o laudo técnico que é exigido na própria MP, quem dirá pagar uma boa porcentagem de entrada”, declarou.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a implementação da medida provisória sobre o endividamento rural. Em carta aberta, a bancada disse que os acordos ainda não avançam na velocidade e na escala necessárias, principalmente para pequenos produtores e pessoas em situação mais vulnerável.

Efeito sobre o próximo ciclo

A redução do crédito bancário também deixou de ser compensada por fontes alternativas de financiamento. Recursos do mercado de capitais chegavam aos produtores por meio de cooperativas, revendas de insumos, operações de barter e outros mecanismos, mas essas alternativas perderam força.

A combinação entre uma safra mais cara, a descapitalização dos produtores e a menor oferta de crédito pode limitar os investimentos no próximo ciclo. O cenário também levanta dúvidas sobre a capacidade de financiamento da safra 2026/27.

Mendes avaliou que uma eventual redução da área plantada por falta de recursos poderia produzir efeitos além das propriedades rurais. Segundo ele, os impactos sobre os consumidores dependeriam de fatores como mercado e câmbio, mas uma produção menor poderia afetar a oferta de alimentos.

Para o presidente da Juragro, é necessário assegurar que os mecanismos previstos para a renegociação cheguem aos produtores. Ele também defendeu que as Cédulas de Produto Rural (CPRs) sejam incluídas nas discussões, devido às dificuldades em operações firmadas com fornecedores e cooperativas.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.