O financiamento à produção agropecuária no Brasil caiu 25,8% em 12 meses, segundo nota técnica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). A área atendida pelo crédito rural recuou de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões no mesmo mês de 2026, conforme dados do Banco Central.
A redução ainda não aparece nos principais indicadores do agronegócio. O PIB do setor, a balança comercial e a inflação de alimentos permanecem em situação favorável porque os resultados atuais refletem decisões de plantio e financiamento tomadas antes do agravamento da crise de crédito. A Farsul avalia que os efeitos devem surgir na safra 2026/27, cujo plantio ocorre entre setembro e novembro.
Rio Grande do Sul tem retração acima da média
No Rio Grande do Sul, a área financiada diminuiu 29,3%. O valor liberado ao estado caiu 18,3%, para R$ 23,1 bilhões, enquanto o número de contratos recuou 16,4%, para 189.655.
A entidade relaciona a maior exposição da lavoura gaúcha ao peso de culturas que tiveram quedas expressivas no crédito nacional. A área financiada de trigo caiu 44,1% no país e a de arroz, 34,7%. No estado, o recuo chegou a 52% para o trigo e a 35,2% para a soja, principal cultura gaúcha. A média nacional de queda para a oleaginosa foi de 25,8%.
A carteira de crédito rural também se deteriorou. A parcela de operações em atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação passou de 11,8% em julho de 2024 para 23,5% em julho de 2026 no Brasil. No Rio Grande do Sul, avançou de 28,6% para 41,3% no mesmo intervalo, quase metade da carteira estadual.
A Farsul associa o agravamento no estado às enchentes de abril e maio de 2024, que prejudicaram a capacidade de pagamento dos produtores. A entidade também aponta a taxa Selic de 14% ao ano como um fator de pressão, porque os juros elevados reduzem o espaço fiscal para subsidiar linhas oficiais de financiamento.
A nota informa que as taxas de custeio do Plano Safra giram em torno de 14% ao ano, ante uma faixa de 7% a 11,5% em ciclos anteriores de juros mais baixos. Para a Farsul, a Resolução CMN 4.966, em vigor desde janeiro de 2025, também favorece maior cautela dos bancos ao exigir projeções prospectivas de risco, além da análise de atrasos já registrados.
Crédito privado cresce, mas não cobre toda a demanda
Instrumentos privados seguem em expansão e reduzem parte da lacuna deixada pelos bancos. O estoque de Cédulas de Produto Rural (CPR) somava R$ 576,4 bilhões em junho de 2026, alta de 12% em 12 meses. Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e fundos Fiagro cresceram 9% e 81% em dois anos, respectivamente.
A Farsul ressalta, porém, que essas alternativas não substituem completamente o crédito bancário. O volume de CPR emitido na safra 2025/26 foi de R$ 377,8 bilhões, 8% abaixo do pico do ciclo anterior. Além disso, CRA e Fiagro exigem escala e acesso ao mercado de capitais, o que limita a alternativa para pequenos produtores, mais dependentes dos bancos e do Plano Safra.
Entidade vê risco para a safra e os alimentos
O PIB da agropecuária cresceu 2,8% no segundo trimestre de 2026 em relação ao primeiro, enquanto indústria e serviços avançaram 0,1% e 0,2%. Esses dois setores respondem juntos por mais de 90% da economia brasileira. Para Antonio da Luz, economista-chefe da Farsul, sem o impulso do agronegócio, o país teria crescido muito próximo de zero ou até zero.
O setor também contribuiu para o superávit comercial de US$ 55,3 bilhões acumulado entre janeiro e agosto de 2026, o segundo maior da série iniciada em 1989. No consumo doméstico, o IPCA-15 de agosto apontou queda de 0,57% no grupo Alimentação e Bebidas, influenciada por tomate, que recuou 27,4%, e batata, com baixa de 25,1%.
A entidade considera esse cenário frágil porque ele resulta de ciclos anteriores, quando a área financiada era maior. Se a retração do crédito continuar no ritmo observado no último ano, a Farsul prevê menor área plantada e produtividade na safra 2026/27, com possível impacto sobre o PIB agropecuário, as exportações, o superávit comercial e os preços dos alimentos.
A federação recomenda acompanhar o crédito contratado no início da safra 2026/27, entre setembro e novembro, e verificar se a deflação de alimentos, atualmente concentrada em poucos itens, continuará nos meses seguintes.



