A demanda mais fraca, associada ao crédito caro e ao alto endividamento das famílias, levou indústria e comércio a acumular mercadorias. Com produtos parados nas prateleiras, empresas passaram a rever a produção, reduzir encomendas e considerar promoções e descontos para liberar estoques.
Na indústria de transformação, o índice que mede a diferença entre o estoque efetivo e o planejado atingiu 50,6 pontos em agosto, maior resultado do ano, de acordo com a sondagem mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os maiores acúmulos foram identificados nos segmentos de têxteis, aparelhos elétricos e eletrônicos e móveis.
A Sondagem da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV) também apontou, em agosto, o maior nível de estoques desde o início do ano. Na avaliação da CNI, agosto registrou queda da produção, recuo da utilização da capacidade instalada e enfraquecimento do emprego. Embora o volume de mercadorias tenha diminuído, os estoques continuaram acima do planejado, enquanto o otimismo com a demanda nos próximos meses perdeu força.
Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI, afirmou que a redução da produção foi maior que a esperada, mas não impediu a alta relativa dos estoques. Para ele, o ajuste deve ocorrer principalmente pela produção, já que não há expectativa de uma mudança significativa no padrão de demanda por bens industriais nos próximos meses.
Efeito sobre o comércio
No comércio, 28,9% das 600 lojas consultadas pela FecomercioSP na Grande São Paulo estavam, neste mês, com estoques acima do nível considerado adequado. Foi o maior percentual desde março de 2023, quando chegou a 29,7%.
Thiago Carvalho, assessor econômico da FecomercioSP, disse que o varejo deve fazer pedidos mais conservadores à indústria nos próximos meses. As vendas abaixo do esperado em datas do primeiro semestre, como Dia das Mães e Dia dos Namorados, deixaram mercadorias paradas e pressionaram o fluxo de caixa das empresas. Com juros elevados para buscar capital de giro, a tendência é de maior uso de promoções e descontos.
O acúmulo ganhou atenção após a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre. Nesse período, os estoques aumentaram R$ 51,6 bilhões, o equivalente a 1,5% do PIB e cerca de 0,6 ponto porcentual acima da média histórica do período. Os dados indicam que parte desse resultado está ligada à frustração de vendas, e não apenas à antecipação de compras ou à formação voluntária de estoques para exportação em setores como a indústria extrativa e a produção de grãos.
Perspectivas para o ajuste
Economistas avaliam que o excesso de mercadorias ainda é moderado e não deve produzir um ajuste recessivo semelhante ao ciclo de desestocagem de 2015 a 2016. A indústria, apontada como o setor com maior parcela de estoque involuntário, tem hoje menor peso na economia.
José Ronaldo de Souza Júnior, CEO da Quantivis Analytics, considera possível que o movimento siga um padrão sazonal, com maior acúmulo no primeiro semestre e escoamento mais intenso na segunda metade do ano. A referência é 2025, que terminou com desestocagem recorde depois de forte acumulação na primeira metade do ano. Para ele, um roteiro semelhante pode ocorrer em 2026.
Marina Garrido, economista do Itaú Unibanco, identifica demanda mais moderada e expectativas menos favoráveis para a produção, mas não vê sinais inequívocos de um ajuste intenso. Segundo ela, os dados apontam normalização, e não um processo expressivo de desestocagem.



