A inteligência artificial generativa já participa de decisões em organizações, com sistemas usados para sugerir contratações e demissões, priorizar projetos, indicar cortes de custos, organizar agendas e resumir relatórios. Também pode apoiar escolhas sobre promoções, realocação de recursos e encerramento de projetos.
Para Luiz Filipe Fortunato e Rodrigo Rocha Gimenez, a ampliação desse uso traz uma questão organizacional: quando uma decisão é apresentada como recomendação de um algoritmo, como fica a percepção da liderança? Os autores defendem que liderar não se resume a ocupar uma posição hierárquica. A influência depende do reconhecimento de que o líder tem capacidade de avaliar situações, julgar alternativas e responder pelas consequências.
A tecnologia pode ampliar capacidades ao ajudar a comparar cenários, reduzir vieses e identificar padrões que não são facilmente percebidos pelas pessoas. O problema, segundo os autores, não está na utilização da IA, mas na maneira como ela é incorporada ao processo decisório. A recomendação técnica não deveria substituir o discernimento humano.
Quando o executivo transfere integralmente suas escolhas para sistemas automatizados, há o risco de enfraquecimento da relação com as pessoas afetadas pelas decisões. Nesse cenário, o líder pode deixar de interpretar situações complexas, considerar implicações éticas e assumir responsabilidade pelos resultados.
Governança e responsabilidade
Os autores também destacam o desafio da responsabilização quando uma decisão automatizada produz um efeito indesejado. A dúvida é se a responsabilidade caberia ao fornecedor da tecnologia, ao modelo matemático ou ao executivo que comunicou a escolha. Para eles, organizações maduras não devem terceirizar essa atribuição.
A adoção de sistemas de IA, portanto, exigiria regras claras sobre o limite entre recomendação e julgamento humano. Entre as práticas apontadas estão a transparência sobre o uso da tecnologia e os critérios aplicados, a definição de quais decisões podem receber apoio da IA e quais devem permanecer sob responsabilidade humana.
O desenvolvimento contínuo do julgamento contextual e do discernimento ético também é apresentado como necessário. A inteligência artificial pode ser integrada aos processos estratégicos, mas sem substituir os rituais de decisão e a responsabilidade de quem lidera.
A conclusão dos autores é que a busca por eficiência não deve enfraquecer a autoridade relacional que sustenta a influência. A máquina pode sugerir, mas a decisão e a responsabilidade pelas escolhas permanecem com o líder.
Luiz Filipe Fortunato é aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP e consultor de gestão e transformação organizacional. Rodrigo Rocha Gimenez é aluno do mesmo doutorado e executivo de estratégia e transformação.



