O ouro passou a ser tratado pelos bancos centrais também como uma questão de jurisdição, além de segurança, liquidez e retorno. A mudança ganhou força depois do congelamento de US$630 bilhões em reservas internacionais russas, em fevereiro de 2022.
No início de 2017, uma onça de ouro, equivalente a 31,1 grama, valia cerca de US$ 1.150. Hoje, está em aproximadamente US$ 4.440. O metal chegou a quase US$ 5.600 em janeiro deste ano, recorde histórico, e acumula valorização próxima de 290% mesmo após a correção registrada neste ano.
A alta ocorreu em etapas. O ouro caiu em 2018 e 2021, ficou estável em 2022 e avançou 13% em 2023, 27% em 2024 e cerca de 63% em 2025. O Financial Times classifica esse movimento como o terceiro grande ciclo de alta desde que o metal passou a flutuar livremente. Os anteriores ocorreram entre 1971 e 1980 e de 1999 a 2011. O ciclo atual começou em 2018 e segue até hoje.
Juros, inflação e geopolítica
Historicamente, a elevação dos juros reais pressionava o preço do ouro. Entre março de 2022 e outubro de 2023, porém, os juros americanos subiram e o metal avançou 7%. A ruptura dessa relação é associada ao congelamento das reservas russas.
Depois da pandemia, o desempenho do ouro passou a refletir também inflação e diversificação. A partir de 2022, a geopolítica acrescentou uma nova preocupação para os bancos centrais: o local sob cuja jurisdição as reservas estão.
Um exemplo é o Banco Central da Holanda, que transferiu parte de suas reservas em ouro de Nova York e Ottawa para Londres. A decisão expõe um dilema: o ouro mantido no exterior é mais fácil de usar, mas pode ser bloqueado; dentro do próprio país, fica mais difícil de bloquear, porém também mais difícil de utilizar.
Em um cenário internacional mais conflituoso, a pergunta central sobre uma reserva pode deixar de ser apenas quanto ela vale. Também passa a importar onde está e se continuará disponível quando o país precisar dela.



