A renovação dos conselhos de administração e consultivos de empresas ganhou velocidade à medida que as companhias passaram a exigir uma atuação mais voltada à estratégia e à geração de valor. O tempo médio de permanência dos conselheiros tem ficado em torno de cinco anos nos últimos três anos. Antes, esse período oscilava entre seis e dez anos, segundo Renata Filippi Lindquist, sócia e fundadora da Soul HR Consulting.
A consultoria também registra aumento na procura por profissionais para os colegiados. Em 2025, os mandatos para recrutamento de conselheiros cresceram 50% em relação a 2024. No primeiro semestre deste ano, a expansão ficou próxima de 25%. A movimentação de conselheiros no mercado aumentou cerca de 15% no último ano.
A maior parte desse crescimento está relacionada à substituição de integrantes de conselhos já existentes, e não à criação de novas cadeiras. Entre 60% e 65% dos novos conselheiros recrutados pela Soul HR Consulting nos últimos três anos foram contratados para substituir membros dos colegiados.
De fiscalização à estratégia
A mudança no perfil dos conselhos acompanha transformações na economia, como o avanço da inteligência artificial, a chegada de novas gerações ao mercado de trabalho e a necessidade de responder mais rapidamente às alterações no ambiente de negócios. Além de fiscalizar a administração e acompanhar resultados, os colegiados passaram a participar do planejamento de longo prazo.
Otto Von Sothen, que soma quase 40 anos em funções executivas, sendo 23 deles como CEO, afirma que os conselheiros passaram a ser mais cobrados pela capacidade de agregar valor à gestão. Ele foi comandante do Grupo Tigre por 11 anos e atualmente participa dos conselhos de quatro companhias.
Na avaliação dele, os colegiados antes dedicavam grande parte do tempo à análise de resultados passados e à cobrança da administração. Com a transformação dos negócios e o impacto da inteligência artificial, os conselheiros precisam se atualizar e levar esses temas para as discussões regulares. “A maioria dos conselheiros é pouco letrada nisso”, diz Von Sothen.
Marcelo Doll, ex-CEO da Drogaria Pacheco São Paulo (DPSP), também identifica uma ampliação da agenda dos conselhos. Para ele, a fiscalização continua necessária, mas a geração de valor para os negócios ocupa espaço crescente.
Entre os temas incorporados às reuniões estão tecnologia, recursos humanos, transformação dos mercados e mudanças no comportamento do consumidor. A tecnologia passou a atravessar diferentes áreas das empresas. “Não conheço nenhum conselho hoje que não coloque todos os meses na sua agenda um assunto de tecnologia”, afirma Doll.
Diversidade de competências
A composição dos colegiados também está mudando. De acordo com Renata Filippi Lindquist, as empresas passaram a buscar maior diversidade de competências, deixando de priorizar exclusivamente pessoas conhecidas pelos presidentes ou de confiança dos acionistas.
A intenção é formar conselhos capazes de contribuir com as transformações exigidas pelos negócios, antecipar riscos e incorporar inovações de maneira mais estruturada. A consultoria aponta que empresas dos setores de varejo, saúde e agronegócios estão conduzindo essa renovação de forma mais organizada.
Esse movimento ocorre principalmente em companhias com faturamento superior a R$ 200 milhões, que mantêm conselhos consultivos ou de administração há vários anos e adotam práticas mais estruturadas de governança.



