SÃO PAULO — Gravações feitas dentro da casa de um dos alvos da Operação Sem Desconto registraram investigados pela fraude do INSS discutindo como proteger dinheiro, preservar bens e retomar os negócios ligados a associações de aposentados. As conversas ocorreram em 22 de maio de 2025, 30 dias após a deflagração da operação da Polícia Federal.
O imóvel pertence a Anderson Cordeiro Vasconcelos e fica em Alphaville, bairro de Santana de Parnaíba, em São Paulo. Câmeras mantidas ligadas 24 horas por dia registraram 30 minutos de imagens e áudio na cozinha e na sala de estar. Na ocasião, Anderson, de 38 anos, recebeu Igor Dias Delecrode, de 28 anos, além da companheira de Igor e do companheiro de Anderson.
Dinheiro, contas e bens
Durante o encontro, Anderson afirmou que pretendia se afastar das associações e deixar sua participação para os demais integrantes. Ele também relatou ter recusado uma proposta de Felipe Macedo Gomes, de 36 anos, para vender sua parte no negócio.
Igor comentou que enfrentava dificuldades para movimentar recursos aplicados, em razão de bloqueios bancários. Ao ser questionado sobre a possibilidade de retirar o dinheiro, respondeu: “Eu tenho dinheiro que tá aplicado. Aí não tem como tirar”. Na sequência, disse que colocaria os recursos em dólar digital, uma criptomoeda descrita como usualmente mais difícil de ser rastreada por investigadores.
Anderson também mencionou um apartamento comprado com outros sócios investigados e disse que tentaria preservá-lo. Em outro momento, afirmou que o negócio das associações voltaria, embora não soubesse quando nem de que forma.
Ele citou ainda a intenção de Américo Monte Jr de tokenizar bens, como obras de arte. Anderson e Igor discutiram a dificuldade de manter um bem físico sob custódia sem que a polícia identificasse quem o guardava.
Associações e investigação
Anderson, Igor, Américo e Felipe são suspeitos de controlar a Amar Brasil Clube de Benefícios, a Master Prev e a Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP). Anderson e Igor também já presidiram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP).
As quatro entidades tinham sedes em salas comerciais em Alphaville. As investigações apontaram que mais de R$ 100 milhões recebidos por elas foram destinados a empresas ligadas aos quatro empresários, que também transferiram recursos a parentes.
A Operação Sem Desconto investiga associações suspeitas de desviar R$ 6,2 bilhões diretamente da folha de pagamento de milhões de aposentados. As entidades receberam mais de R$ 700 milhões com descontos indevidos sobre mensalidades. No grupo de quatro empresários, a Polícia Federal apreendeu 29 carros avaliados em R$ 28 milhões.
Os acordos de cooperação técnica com o INSS permitiam os descontos diretamente na folha. Em troca, as associações ofereciam serviços como seguros e planos de saúde. Dados da Controladoria-Geral da União indicaram que 98% dos aposentados não haviam autorizado os descontos.
Defesa
Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que defendem Anderson, Igor e Felipe, disseram desconhecer a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos. Também afirmaram que, se os vídeos existirem, teriam sido obtidos de maneira ilícita e criminosa.
As defesas de Eric Fidelis e Virgilio de Oliveira não se manifestaram. A defesa de Antonio Carlos Camilo Antunes não foi localizada.
Os empresários investigados não haviam sido presos. Em abril de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça determinou, a pedido da Polícia Federal, o uso de tornozeleiras eletrônicas por eles.



