PORTO ALEGRE — O Rio Grande do Sul passou a lidar com eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos, após enchentes históricas, temporais, vendavais e tornados. A previsão de um El Niño de forte intensidade, com efeitos mais expressivos entre outubro e janeiro, elevou o alerta para chuvas volumosas e novas inundações.
O climatologista Carlos Nobre afirma que o fenômeno deve ganhar força a partir de setembro, embora não seja possível antecipar com precisão eventos meteorológicos de longo prazo. Para ele, o estado precisa se preparar para o período de maior impacto.
Falhas identificadas nos municípios
Um levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, realizado depois das enchentes de 2024, apontou problemas na prevenção municipal. Entre os 497 municípios gaúchos, 215 tinham planos de contingência desatualizados e 175 informaram não contar com estrutura adequada para prevenir e responder a desastres.
O auditor Everton do Amaral Padilha, responsável pelo estudo, identificou também desconhecimento sobre as áreas de risco e baixa disseminação da cultura de prevenção. “Muitos municípios não tinham mapeamento de áreas de risco”, afirmou.
Atualmente, os 497 municípios dizem possuir planos de contingência. O Tribunal de Contas, porém, ressalta que o documento precisa ser conhecido pela população, que deve saber quais abrigos procurar e quais rotas de fuga utilizar.
Dados do Serviço Geológico do Brasil mostram que mais de 740 mil gaúchos vivem em áreas sujeitas a deslizamentos, enchentes e inundações. Carlos Nobre defende políticas permanentes para retirar dezenas de milhares de pessoas de locais de altíssimo risco.
Monitoramento e obras em Porto Alegre
Na capital, a Defesa Civil mantém meteorologistas, hidrólogos e geólogos acompanhando as condições do tempo 24 horas por dia. Sensores distribuídos pela cidade permitem emitir alertas direcionados a cada região, de acordo com o fenômeno identificado.
O sistema de proteção contra cheias também passa por intervenções. No bairro Sarandi, parte do dique foi elevada para a cota de 5,8 metros. A área atingida primeiro pelo transbordamento do arroio durante a enchente de 2024 foi liberada para a continuidade dos trabalhos, enquanto moradores ainda relatam insegurança diante da possibilidade de novas chuvas.
Casas de bombas receberam sensores para acompanhar o nível da água em tempo real. A rede reúne 23 estações de bombeamento, além de geradores e linhas exclusivas de energia. As comportas foram modernizadas: oito permanecem fechadas e duas continuam abertas para a circulação de veículos.
Na região próxima aos trilhos da Trensurb, considerada vulnerável pelo professor Fernando Dornelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, novas comportas foram instaladas no fim de agosto. A intervenção incluiu um dique de cerca de 100 metros entre o Arroio Passo das Pedras e o Rio Gravataí, com expectativa de reduzir alagamentos na Zona Norte e impactos sobre o Aeroporto Salgado Filho.
Aeroporto adota novos protocolos
Depois de permanecer fechado durante meses por causa da enchente de 2024, o aeroporto recebeu obras na pista, reforços estruturais e procedimentos específicos para eventos extremos. A Fraport trabalha com quatro níveis de contingência e equipes treinadas para diferentes situações.
O terminal possui ainda um sistema de drenagem com cinco grandes bacias, bombas e equipamentos para resposta rápida ao acúmulo de água. Para o diretor de Infraestrutura e Manutenção da empresa, Cássio Dias Gonçalves, a proteção contra cheias está em condição melhor do que em 2024.



