FLORIANÓPOLIS — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, durante um ato de campanha, que os produtores rurais deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” diante dele caso a relação com o agronegócio dependesse do dinheiro liberado pelo governo. A declaração foi criticada pelo comentarista de Economia e Política Miguel Daoud.
Para Daoud, o Plano Safra é uma política de Estado, e não uma iniciativa pessoal do presidente da República. Na avaliação dele, o crédito rural é financiado por diferentes fontes, como a poupança rural, os depósitos obrigatórios, os bancos, os fundos constitucionais e as Letras de Crédito do Agronegócio.
Para a safra 2026/2027, foram anunciados mais de R$ 610 bilhões, sendo R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões ao Pronaf. Daoud ressalta, porém, que esse montante não representa integralmente recursos retirados do Tesouro e entregues aos produtores.
O produtor contrata o financiamento, paga juros, oferece garantias e devolve o valor recebido. Quando há equalização, o governo cobre apenas parte da diferença entre a taxa oferecida ao produtor e o custo do dinheiro. Por isso, o comentarista sustenta que crédito rural não é doação nem favor pessoal.
Produção, custos e endividamento
O setor agropecuário responde ao crédito com produção, alimentos, empregos, impostos e exportações. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169 bilhões e registrou superávit próximo de US$ 149 bilhões. No mesmo ano, enquanto o PIB brasileiro cresceu 2,3%, a agropecuária avançou 11,7%.
Daoud afirma que o valor anunciado no Plano Safra não garante, por si só, o acesso efetivo aos recursos. Segundo ele, os produtores enfrentam crédito caro, margens menores, seleção mais rigorosa dos bancos, custos elevados, falta de seguro rural e perdas causadas por secas e enchentes.
No Rio Grande do Sul, milhares de produtores tiveram safras seguidas de prejuízos. Foram anunciadas renegociações e linhas emergenciais, mas parte do setor continua endividada e enfrenta dificuldades para transformar as medidas anunciadas em crédito disponível.
O comentarista também afirma que a alta dos alimentos não significa necessariamente aumento dos ganhos dos produtores. Entre os fatores que pressionam a atividade estão o diesel, a energia, os fertilizantes, os juros, o transporte, o clima e as cotações internacionais.
Na avaliação de Daoud, o produtor tem o direito de avaliar o governo e votar conforme suas convicções. Ele conclui que o crédito público não deve ser tratado como instrumento de compra de votos e que a política agrícola não cria uma dívida pessoal de gratidão com o governante.



