O plano de governo de Cleitinho (Republicanos) para Minas Gerais é criticado por apresentar promessas de expansão dos serviços públicos sem detalhar como enfrentar as restrições fiscais do estado. A avaliação, assinada por Jaqueline Morelo, aponta simplificação de problemas complexos, ausência de indicadores de partida e reapresentação de políticas já adotadas por governos anteriores.
A proposta usa slogans como “o povo primeiro!” e “o dinheiro é do povo, não do governo” e promete reduzir cargos comissionados, cortar privilégios e fazer mais com menos. Para a autora, porém, a estrutura orçamentária mineira é pressionada principalmente por despesas obrigatórias, como folha de pagamento e previdência. Por isso, a eliminação de cargos comissionados não seria suficiente para financiar recomposições salariais, novos concursos e a ampliação de serviços.
O documento também é classificado como generalista por não apresentar dados sobre leitos, infraestrutura ou desempenho educacional. Medidas como a criação de uma Sala de Monitoramento da Gestão, o uso de indicadores de desempenho e o foco na alfabetização na idade certa são associadas a iniciativas dos governos de Aécio Neves e Anastasia. Já os Fóruns Regionais de Gestão Pública são relacionados à administração de Fernando Pimentel.
Limites fiscais e renúncias
A análise utiliza dados do Relatório sobre a Macrogestão e Contas do Governador do Estado de Minas Gerais referente a 2025, elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. O Executivo ficou acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal em todos os quadrimestres daquele ano: 48,80% no primeiro, 48,52% no segundo e 48,22% no terceiro, diante do limite de 46,55% da Receita Corrente Líquida.
Entre 2021 e 2025, o pagamento de férias-prêmio convertidas em espécie acumulou mais de R$ 1,33 bilhão. No mesmo período, as renúncias fiscais chegaram a R$ 25 bilhões, com crescimento real de 37,3%. Em 2025, os incentivos equivaleram a 29,2% da arrecadação de ICMS e a 21,5% da receita tributária estadual.
O plano prevê revisar renúncias fiscais e renegociar a dívida com a União, mas, segundo a análise, não define critérios para manter ou cortar benefícios. Também não apresenta uma estratégia detalhada para elevar a arrecadação nem explica como conciliar novas despesas com as restrições legais.
Participação e desigualdade regional
A proposta promete regionalizar a administração e valorizar os municípios. Os dados do TCE-MG, porém, indicam concentração das despesas na Região Intermediária de Belo Horizonte e baixa execução de demandas apresentadas por processos participativos. Em 2025, 7 das 30 ações orçamentárias destinadas a essas demandas registraram empenho, equivalente a 22,40% de uma dotação de R$ 24,92 milhões.
A avaliação também questiona a previsão de financiar infraestrutura diretamente pelo Tesouro, diante da dependência de empresas estatais e de receitas extraordinárias. O texto cita que 84,23% dos investimentos das estatais estaduais dependem da liquidez de empresas como Cemig e Copasa, além de recursos do Acordo do Rio Doce, royalties minerários e da CFEM.
Outra crítica recai sobre a proposta de tornar o IPVA progressivo e conceder isenções para veículos populares. A medida seria apresentada em um cenário de déficit estimado na Lei Orçamentária Anual em R$ 8,59 bilhões e de Restos a Pagar superiores a R$ 9,2 bilhões. A análise ressalta ainda que o imposto é compartilhado com os municípios.
Para Jaqueline Morelo, o plano combina a promessa de ampliar a atuação estatal com pouca definição sobre financiamento, execução e avaliação das políticas. A autora também aponta que Assistência Social e Direitos da Cidadania somam apenas 0,25% da LOA, o que, em sua avaliação, revela distância entre as propostas eleitorais e a realidade social.



