MARINGÁ — Uma propaganda eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva exibida em outubro de 2002 reuniu mulheres grávidas, modelos, mães e crianças em uma plantação de trigo na região de Maringá, no noroeste do Paraná. Mais de duas décadas depois, participantes e familiares têm avaliações diferentes sobre o governo, o PT e as escolhas para a eleição presidencial.
A peça mostrava o grupo caminhando por uma fazenda ao som de “Bolero”, de Maurice Ravel. Quando a música diminuía, Chico Buarque perguntava que país os eleitores desejavam deixar para a próxima geração. A gravação terminava com a frase: “Se você não muda, o Brasil também não muda”.
Cerca de 50 pessoas participaram da produção. Algumas mulheres não estavam grávidas e usaram barrigas de espuma. Cada participante recebeu entre R$ 25 e R$ 40, valores equivalentes hoje a aproximadamente R$ 100 e R$ 160.
Juliane e a mudança na vida familiar
Juliane Souza tinha 26 anos e estava grávida de Gabriela quando aceitou o convite da agência que a representava. Ela não era militante, mas se emocionou com a produção e votou em Lula naquele ano. “Tinha aquela esperança de que agora vai, agora muda”, afirmou.
Aos 49 anos, Juliane trabalha como motorista de aplicativo em Maringá e diz que não pretende votar novamente em Lula. Para ela, a fase de aprovação ao presidente durou apenas “dois ou três anos”. A participante ressalva, porém, que as mudanças em sua vida não podem ser atribuídas apenas aos governos que vieram depois da gravação.
A rotina mudou principalmente em 2008, quando ficou viúva e precisou voltar ao mercado de trabalho. Durante a pandemia, com a queda no número de passageiros, ela passou a entregar máscaras produzidas pela mãe e a transportar pacientes para tratamentos em Curitiba e São Paulo.
Os três filhos chegaram ao ensino superior. A filha mais velha é biomédica, Gabriela se tornou publicitária e o caçula cursa análise e desenvolvimento de sistemas. Gabriela, aos 23 anos, diz buscar segurança financeira. “Você não tem paz. Parece que tem que sempre estar fazendo num dia para pagar no outro, para as contas se encaixarem.”
Mãe e filha acompanham nomes como Renan Santos, do Missão, e Ronaldo Caiado, do PSD, mas ainda não definiram o voto. Outra participante, uma empresária de Maringá que pediu para não ser identificada, afirma que nunca teve vínculo com o PT e avalia que o país piorou sob administrações do partido.
Filhos que cresceram após a campanha
L. tinha dois anos quando apareceu no colo da mãe no comercial. Hoje, aos 26, afirma nunca ter assistido à propaganda completa. Ele estudou em escolas públicas desde a creche e conseguiu uma bolsa integral do Prouni, programa criado no primeiro governo Lula para conceder bolsas a estudantes de baixa renda em instituições privadas de ensino superior.
O jovem diz que foi favorecido pela mudança de governo e que a família se estabilizou com o acesso a programas sociais durante sua infância. Embora acompanhe pouco a política, identifica-se com ideias de centro-esquerda e afirma que temas como educação e trabalho orientam suas posições. Na eleição presidencial, considera Lula a opção “menos pior”.
Tatiana Vanessa Soria também participou da gravação. Na época, trabalhava em uma agência de modelos, e seu filho Rafael, ainda bebê, aparecia em seus braços. Aos 48 anos, ela é bióloga, mestre, doutora e professora da rede estadual do Paraná.
Tatiana afirma que vota em candidatos do PT em todas as eleições presidenciais desde 2002. Durante a pandemia de Covid, incomodada com a condução de Jair Bolsonaro, participou de cursos de formação política, estudou autores marxistas e aderiu ao PSOL. Atualmente, mantém pouco contato com o partido, mas continua votando no PT por considerá-lo a força eleitoral com mais possibilidades de vitória e mais próxima de suas ideias.
Entre 2014 e 2015, Tatiana participou do Ciência sem Fronteiras, programa criado no governo Dilma Rousseff, por meio de um doutorado-sanduíche nos Estados Unidos. A bolsa custeou um ano de estudos fora do país. Nesse período, Rafael frequentou uma escola americana e aprendeu inglês.
Depois de concluir o ensino médio em uma escola pública de Maringá, Rafael prestou vestibular aos 18 anos. Hoje, mora em outra cidade e cursa uma universidade pública. Para Tatiana, a trajetória do filho reforça o papel da educação em suas escolhas políticas e a convicção de que foi acertado votar em Lula em 2002.
A estratégia da campanha
O publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha de Lula, criou a propaganda para suavizar a imagem do candidato, que disputava a Presidência pela quarta vez. A estratégia apostava na conciliação, em uma guinada ao centro e no slogan “a esperança vai vencer o medo”.
José Dirceu, então coordenador da campanha, afirmou que o filme fazia parte de uma mudança na comunicação do partido. A equipe buscava substituir a propaganda negativa por mensagens que combinassem emoção e uma perspectiva de futuro, com foco na família, na mulher e no futuro do país.
Com José Alencar como vice, Lula liderou o primeiro turno e, em 27 de outubro, derrotou José Serra com 61,3% dos votos válidos. Com o resultado, tornou-se o primeiro presidente eleito pelo PT.



