As principais preocupações dos produtores rurais para o próximo governo estão concentradas em renda, crédito e proteção contra perdas. Enquetes realizadas no WhatsApp e no Instagram mostraram que 49,7% dos participantes priorizam a garantia de renda e lucro real. Outros 30,9% escolheram mais crédito, juros baixos e seguro garantido. Juntas, essas respostas somam 80,6%.
A melhoria da infraestrutura e a redução das barreiras burocráticas foram citadas por 17,7% dos participantes. Já o financiamento para máquinas novas e tecnologia recebeu 1,7% das escolhas.
A comparação entre essas demandas e os planos dos candidatos à Presidência da República mostra que os temas aparecem nas propostas, mas com estratégias diferentes. Há programas que defendem o fortalecimento do Plano Safra e dos bancos públicos, enquanto outros priorizam mecanismos privados e maior participação do mercado.
Renda e modernização da produção
Augusto Cury, do Avante, associa o aumento da rentabilidade à transformação dos produtos dentro do país. No plano Brasil dos Nossos Sonhos, ele propõe a instalação de 100 usinas de etanol de milho, com capacidade de processar até 100 milhões de toneladas por ano, além da criação de 10 mil unidades voltadas ao processamento.
A proposta busca ampliar a agregação de valor aos grãos, incluindo a produção de proteína animal, e formar polos integrados no interior, com atenção especial às regiões Norte e Nordeste. O programa também prevê investimentos em Agro 4.0, robótica, inteligência artificial, agricultura de precisão e armazenagem. Crédito, juros e seguro rural, porém, não recebem o mesmo destaque.
Renan Santos, do Missão, também aposta na industrialização como forma de elevar a renda. Na plataforma AgroBrasil 2030, a proposta é reorganizar o Plano Safra para favorecer estabelecimentos que invistam em processamento. O programa inclui ainda produção nacional de defensivos e fertilizantes, criação de Zonas Econômicas Especiais e medidas de segurança jurídica relacionadas à reforma agrária, invasões de propriedades e regularização do ambiente produtivo.
Nesse caso, a proposta se aproxima das demandas por rentabilidade, segurança para produzir, redução da burocracia e infraestrutura. Crédito e seguro rural aparecem com menor destaque.
Crédito, seguro e proteção financeira
Flávio Bolsonaro, do PL, concentra parte das medidas na proteção financeira dos produtores. O plano Para o Brasil Vencer o Atraso prevê ampliar a cobertura do seguro rural e criar mecanismos para reorganizar dívidas. Também propõe estimular a produção nacional de potássio e fosfato, reduzindo a dependência externa de fertilizantes.
Na área de regularização, o programa prevê simplificar a outorga de água para irrigação e acelerar a titulação de imóveis rurais. Essas medidas são apresentadas como formas de facilitar o acesso ao financiamento bancário e enfrentar entraves burocráticos.
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, propõe reforçar o Plano Safra por meio dos bancos públicos, com atenção à agricultura familiar e ao cooperativismo. O programa também inclui transição ecológica, recuperação de pastagens degradadas e agricultura de baixo carbono.
Para apoiar a renda, a proposta prevê fortalecer a Conab e reconstruir estoques públicos reguladores, com o objetivo de reduzir a volatilidade dos preços dos alimentos. Na área de insumos, há previsão de ampliar a fabricação nacional de fertilizantes, inclusive por meio da Petrobras. Ferrovias e hidrovias aparecem entre os investimentos previstos no Novo PAC. O seguro rural, contudo, não está entre os principais destaques do plano.
Modelos diferentes para o seguro rural
Romeu Zema, do Novo, propõe ampliar a participação privada na proteção contra perdas climáticas e oscilações de mercado. No Plano Implacável, a ideia é criar um fundo de seguro rural abastecido por recursos públicos e privados. O mecanismo seria usado para cobrir prejuízos causados por eventos climáticos e variações de mercado.
O plano também defende parcerias com empresas privadas para ampliar ferrovias, portos, rodovias e armazenagem. Outras medidas tratam de desregulamentação e de facilidades para importar e produzir defensivos e fertilizantes.
Ronaldo Caiado, do PSD, apresenta um plano para 2027 a 2030 com Plano Safra plurianual, Fundo de Catástrofe e modernização do seguro rural. Entre as propostas estão seguros paramétricos baseados em índices climáticos e dados de satélite, além do seguro de renda.
A candidatura também prevê corredores logísticos multimodais para o agronegócio, incentivos fiscais à armazenagem privada e acordos bilaterais destinados a ampliar a inserção internacional do agronegócio brasileiro. O conjunto contempla crédito, seguro, proteção da renda, infraestrutura e armazenagem.
Demandas com respostas distintas
Renda, crédito e seguro aparecem nos programas analisados, mas não por meio de uma solução única. Parte dos candidatos prioriza políticas públicas, o Plano Safra e os bancos estatais. Outros defendem fundos privados, parcerias com empresas e menor intervenção do Estado.
A infraestrutura é tratada principalmente por meio de propostas para ferrovias, hidrovias, armazenagem, portos, rodovias e parcerias com a iniciativa privada. Já o financiamento para máquinas e tecnologia, que teve 1,7% das escolhas, surge de forma mais indireta em iniciativas de inovação, modernização e Agro 4.0.
Assim, as prioridades indicadas pelos produtores estão presentes nos planos, mas as alternativas para atender a cada uma delas variam entre crédito oficial, industrialização, seguro privado, políticas de renda e investimentos logísticos.




