Uma rede de perfis políticos no Instagram concentrou 53% das curtidas e dos comentários em apenas 25 publicações, embora tenha reunido 1.204 posts no período analisado. O levantamento do Instituto Democracia em Xeque identificou 255 contas associadas a pautas da extrema direita, com conteúdos sobre o STF, desinformação eleitoral, violência política de gênero e promoção de figuras do campo bolsonarista.
Entre 15 de agosto e 15 de setembro, o conjunto de publicações alcançou 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários. A estrutura usava o recurso de collabs, que permite a publicação conjunta por diferentes perfis e o compartilhamento de audiência.
Audiência concentrada e circulação entre contas
Quase metade dos posts, 586, foi publicada em colaboração com outras contas. Essas peças responderam por 63% do engajamento registrado. Em alguns casos, o mesmo conteúdo apareceu simultaneamente em até seis perfis.
O instituto dividiu a rede em seis núcleos. O maior reunia 60 contas em torno de @narrativascuriosastv, página de memes e vídeos curtos que deixou de publicar no início de setembro. Esse grupo foi responsável por 617 posts e por 54% do engajamento.
A conta teve 1,5 milhão de interações e 17,2 milhões de visualizações. Outra página de grande alcance, @imperio_patriotico, acumulou 1,1 milhão de interações e 8,3 milhões de visualizações. O conteúdo mais popular da rede foi publicado por ela em 16 de agosto: um vídeo que associava a premiação de uma adolescente de 14 anos em uma olimpíada de matemática a uma crítica ao governo. A publicação teve 651 mil interações, equivalentes a 13% do total, e direcionava seguidores para outro perfil.
A prática de transferir audiência também aparecia em publicações da @narrativascuriosastv. Em 30 de agosto, uma postagem com 129 mil interações orientou os seguidores a acompanhar um perfil alternativo, sob a justificativa de que a conta atual poderia deixar de existir. Três dias depois, a página original parou de publicar na base analisada, enquanto a @narrativascuriosastv3.0 começou a divulgar conteúdo próprio.
A conta original foi bloqueada em resposta a uma liminar da Justiça Eleitoral. O perfil reserva tinha 10,6 mil seguidores e continuava ativo, mantendo o uso de colaborações e referências à religiosidade. As publicações apresentavam a derrubada como uma forma de perseguição a contas bolsonaristas, sem mencionar a decisão judicial ou as regras da Meta sobre comportamento inautêntico coordenado.
Léo Índio e a oferta de cursos
Entre os perfis do maior núcleo estava a @leoindiobolsonaro, administrada por Leonardo Rodrigues de Jesus, conhecido como Léo Índio. Primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, ele é alvo do inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado de 2023. Teve a prisão decretada em 2025 e está foragido na Argentina.
A conta participou de 111 publicações, sendo autora principal em 15 delas. O perfil acumulou 754 mil interações e quase 6 milhões de visualizações. O levantamento encontrou ataques políticos e conteúdos de violência de gênero produzidos com inteligência artificial.
A rede também divulgava um curso de produção de conteúdo sintético. O treinamento, apresentado como apartidário, custava R$ 167 e tinha mais de 90 módulos, incluindo aulas sobre vídeos virais com Bolsonaro e Lula e orientações para remover marcas d’água de conteúdos artificiais.
O curso era promovido pela @narrativascuriosastv e por outros perfis. A Kiwify, responsável pela hospedagem, informou que os módulos considerados problemáticos haviam sido removidos por violarem as regras da plataforma.
Temas políticos e identificação de IA
Humor e paródia responderam por 34% das interações. Conteúdos sobre Lula, o PT e Janja somaram 16%; publicações relacionadas ao STF, a Alexandre de Moraes e a André Mendonça representaram 10%; e materiais de promoção da família Bolsonaro, do PL e do número 22 corresponderam a 7%.
O relatório também identificou montagens hipersexualizadas de Janja, ataques contra parlamentares e uma imagem sintética que sexualizava a estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes. Nas representações dos ministros do Supremo, Alexandre de Moraes aparecia como adversário, enquanto André Mendonça era apresentado como contraponto.
Flávio Bolsonaro foi citado em 34 legendas. Leandro de Jesus, Bia Kicis e Michelle Bolsonaro também aparecem entre os nomes mais mencionados. Sete perfis classificados como políticos ou candidatos foram autores ou coautores de publicações com contas da rede, entre eles Leandro de Jesus e Rafael Policial. O perfil nacional do PL também colaborou em uma publicação.
A identificação explícita do uso de inteligência artificial apareceu em apenas 155 dos 1.204 posts, ou 12,9%. Em 134 casos, o próprio autor declarou o uso da tecnologia; nos demais, o registro veio de metadados dos arquivos. Essas publicações concentraram 44% do engajamento. Ao todo, 71% dos posts não tinham registro de uso de IA, o que, segundo o instituto, não permite concluir que a tecnologia não tenha sido utilizada.
Perfis ligados a André Mendonça
Uma análise paralela encontrou conexões entre perfis que simulavam apoio popular a André Mendonça e outras fazendas de conteúdo com inteligência artificial. Essa rede foi considerada independente da estrutura principal, mas apresentava ligações e padrões de atuação semelhantes.
Foram identificados 20 perfis com nomes ou apelidos de políticos ou de Mendonça acompanhados de termos como apoio e presidente, ou de sufixos numéricos. Nenhum era oficial. Quatro estavam entre as páginas classificadas como fazendas de conteúdo com IA.
O grupo reunia 28 perfis, que publicaram 84 conteúdos e somaram 2,9 milhões de interações. Havia páginas com variações dos nomes de Flávio e Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e André Mendonça.
A @andremendoncas3 participou de cinco publicações, com cerca de 367 mil interações e 3,1 milhões de visualizações. Já a @andremendoncas2 não publicou nem coassinou posts capturados diretamente na base, mas foi marcada repetidamente por páginas associadas a Nikolas, Michelle e Flávio Bolsonaro.
A análise separou essa rede da fazenda principal depois de novas buscas indicarem que eram estruturas distintas. Ainda assim, os vínculos apontaram para formas de produção, amplificação e transferência de audiência entre páginas voltadas à promoção de figuras bolsonaristas.



