René Descartes questionou o hábito de buscar nos livros e nos pensadores de outras épocas uma forma de escapar dos desafios do presente. Para o filósofo e cientista francês, a leitura pode ampliar a experiência, mas também afastar uma pessoa da própria vida quando usada como refúgio constante.
A reflexão aparece em Discurso sobre o Método, obra na qual Descartes comparou o contato com autores antigos a uma viagem. Ele escreveu: “É quase a mesma coisa conversar com pessoas de outros séculos e viajar”. A frase desloca a ideia de que ler seria apenas uma experiência inspiradora e chama atenção para os limites dessa prática.
O risco do distanciamento
Descartes pretendia questionar a educação de sua época e o uso da erudição histórica como caminho para evitar o confronto com a realidade vivida. O problema, nessa perspectiva, não está em conhecer os clássicos, mas em transformar esse contato em uma maneira de não viver o próprio presente.
A escritora Susan Sontag também descreveu a leitura como uma passagem para outros lugares, vidas e mundos. A imagem se tornou associada a uma experiência acolhedora e inspiradora, mas a crítica de Descartes acrescenta uma advertência: viajar por outras épocas pode fazer alguém se tornar um estranho na própria vida.
Essa discussão é relacionada, no texto, a um cotidiano marcado pela fuga do desconforto, dos compromissos e da rotina. A manipulação da realidade é apresentada como uma tendência entre a Geração Z, o que reforçaria a atualidade da reflexão do filósofo francês.



