O kratom, uma erva com efeitos semelhantes aos dos opioides, ganhou popularidade nos Estados Unidos e é vendido sem receita em comprimidos, pó e líquidos. Como não há regulamentação federal sobre os produtos, especialistas alertam que os consumidores não sabem exatamente o que estão comprando.
A substância também não é regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em uma nota técnica de 2023, a agência recomendou incluir o kratom na lista de plantas proibidas.
Uso contra dor e fadiga
Jeffrey Deaver, lenhador aposentado de 58 anos do estado de Washington, usa kratom há quatro anos para tentar reduzir dores crônicas severas no quadril e no joelho. Ele recorreu ao produto fitoterápico enquanto aguardava cirurgias, depois de não obter alívio com médicos.
Inicialmente, Deaver começou com uma dose baixa e aumentou a quantidade até que a dor desaparecesse. “Foi como um milagre”, disse. Segundo ele, o produto permitiu dormir e manter suas atividades.
O kratom é uma árvore originária do Sudeste Asiático, encontrada em países como Tailândia, Malásia e Indonésia. Suas folhas são usadas há séculos por propriedades estimulantes, moídas e consumidas como chá. Com a expansão do consumo internacional, a planta entrou no mercado americano como suplemento por volta de 2016.
Nos Estados Unidos, é vendida em lojas de conveniência, postos de gasolina e lojas de cigarros eletrônicos. A classificação como suplemento impede que o governo americano verifique de forma abrangente a composição dos produtos, que podem ser comercializados em versões altamente concentradas.
Efeitos e riscos
O kratom costuma ser apresentado como um suplemento herbal natural para auxiliar no controle da dor, da ansiedade e da depressão. Em doses baixas, pode produzir efeitos estimulantes e uma sensação de euforia semelhante à da cafeína. A nota técnica da Anvisa também afirma que esses efeitos podem se aproximar dos provocados pela cocaína e ser usados para combater a fadiga durante longas horas de trabalho.
Em doses altas, a substância apresenta efeitos do tipo opioide, como analgesia, retardo do esvaziamento gástrico e sintomas de abstinência. Esses efeitos estão relacionados a compostos da planta, entre eles a 7-hidroximitraginina, que ativa hormônios como a dopamina.
Alucinações, dependência e tolerância estão entre os riscos apontados por especialistas. Com o tempo, usuários podem aumentar a quantidade consumida para obter o mesmo efeito. Jana Wu, diretora de integração clínica do centro de tratamento de dependência Mountainside, relatou ter atendido pessoas que chegavam a tomar até 20 comprimidos por dia.
Doses elevadas também podem causar depressão do sistema nervoso central, com possibilidade de colapso cardiovascular e parada respiratória. Wu afirmou que os problemas associados ao consumo podem atingir casamentos, relacionamentos e empregos.
Alertas e regras nos Estados Unidos
Nesta semana, investigadores encontraram embalagens de kratom com dois estudantes da Universidade do Mississippi que morreram. As mortes não foram atribuídas à substância, mas o caso levou autoridades a emitir alertas sobre o consumo.
O kratom é proibido em 11 estados americanos: Alabama, Arkansas, Connecticut, Indiana, Kansas, Louisiana, Massachusetts, Dakota do Norte, Tennessee, Vermont e Wisconsin. Massachusetts foi o último a tornar a substância ilegal, por meio de uma ordem emergencial temporária emitida em agosto.
Dez anos antes, a Agência de Combate às Drogas dos EUA (DEA) havia classificado o kratom como substância controlada de Classe 1, o nível mais perigoso para drogas, e o chamado de perigo iminente para a segurança pública. A iniciativa fracassou alguns meses depois, após o Departamento de Justiça informar que havia recebido numerosos comentários públicos contrários à tentativa.
Com a decisão, os estados ficaram responsáveis por adotar medidas próprias. O Arizona, por exemplo, processou recentemente uma empresa que vende bebidas à base de kratom.
Grupos que defendem a proibição afirmam que drogas comercializadas em postos de gasolina estão envenenando comunidades. Já organizações favoráveis ao kratom, como a American Kratom Association, pressionam por restrições a produtos sintéticos que se apresentam como kratom natural.
Situação em outros países
No Reino Unido, o kratom é ilegal. Na Europa, as regras variam entre os países. Na Malásia, país de origem da árvore, o consumo e a venda são proibidos pela Lei de Venenos de 1952.
No Brasil, a nota técnica de 2023 da Anvisa recomendou que o kratom fosse incluído na lista de plantas proibidas, mas a substância não é regulamentada pela agência.



