Chamar o cachorro de filho, dividir a cama, comemorar seu aniversário e adaptar a rotina da casa para ele são hábitos presentes em muitas famílias. Essas demonstrações de afeto, porém, exigem atenção quando fazem com que as necessidades específicas do animal sejam deixadas em segundo plano.
Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Arizona State University e publicada na revista Anthrozoös mostrou que as pessoas nem sempre interpretam corretamente as emoções dos cães. Muitas vezes, a avaliação é influenciada mais pelo contexto da situação do que pelos sinais comportamentais apresentados pelo próprio animal.
Para Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan, no Canadá, chamar-se de “mãe de pet” pode expressar cuidado e proximidade legítimos. Cleber Santos, especialista em comportamento animal e fundador da Comport Pet, afirma que o afeto deve vir acompanhado de limites e respeito às características da espécie.
Sinais que merecem atenção
1. O nome da relação não define o problema
Usar as expressões “mãe de pet” ou “pai de pet” pode indicar uma identidade de cuidado sem significar que a pessoa ignore as diferenças entre humanos e animais. Para Renata Roma, o ponto central é observar como essa relação é vivida e se as necessidades do cachorro estão sendo respeitadas.
2. O cuidado se transforma em superproteção
A superproteção pode aparecer quando o tutor tenta evitar qualquer desconforto ou frustração do animal. Segundo Cleber Santos, manter o cão constantemente no colo ou ao lado e interpretar todo incômodo como sofrimento pode fazer com que ele aprenda a não lidar com a ausência do tutor.
3. O cachorro não consegue ficar sozinho
Um vínculo forte não exige que o cão permaneça o tempo todo junto da pessoa. Se ele não consegue relaxar, descansar ou ficar sozinho sem demonstrar sofrimento, a situação merece atenção.
“Se o cão só consegue relaxar quando está grudado no tutor, isso não é necessariamente um vínculo saudável; pode ser dependência emocional”, afirma Cleber Santos. Para o especialista, o espaço de descanso deve ajudar o animal a ficar bem também quando está sozinho.
Renata Roma acrescenta que o pet pode ocupar um lugar importante na vida emocional do tutor sem substituir relações humanas ou filhos. Reconhecer esse espaço, segundo ela, não exige apagar as diferenças entre as espécies.
4. A vontade do tutor vem antes do bem-estar do pet
Roupas, festas, fotos, acessórios e o hábito de dormir na mesma cama podem fazer parte da convivência familiar. O limite aparece quando o conforto e os sinais apresentados pelo animal deixam de ser considerados.
Vestir o pet de modo desconfortável, forçar situações para tirar fotos ou ignorar sinais de estresse pode prejudicá-lo. Para Renata Roma, a questão não está diretamente no uso da expressão “mãe de pet”, mas na capacidade de respeitar o animal como ele é.
5. O cachorro precisa continuar podendo agir como cachorro
A principal questão não é o uso da palavra “filho”, mas se o animal ainda tem espaço para agir de acordo com suas próprias necessidades. Renata Roma propõe que os tutores avaliem se estão respeitando o pet, projetando nele necessidades pessoais ou permitindo que ele seja simplesmente um animal.
Cleber Santos resume o equilíbrio necessário na relação: “Ame os pets como filhos, mas os respeite como animais. Pessoas e animais têm necessidades bem diferentes”.
Considerar o cachorro parte da família não significa, necessariamente, tratá-lo de maneira inadequada. O vínculo pode ser profundo e afetivo, desde que não se transforme em uma tentativa de fazer o animal se adaptar a necessidades exclusivamente humanas.



