A comunicação se tornou uma frente estratégica para o agronegócio brasileiro, na avaliação de Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA). Para ele, o setor avançou em tecnologia, ciência, produtividade e sustentabilidade, mas não construiu uma estratégia permanente para se apresentar à sociedade.
A avaliação foi feita no programa Radar Rural, do Canal Rural, exibido na última sexta-feira (11). Nicodemos afirmou que o agro conversa principalmente com o próprio setor, o que amplia a distância entre o que ocorre no campo e a percepção da população urbana.
Comunicação além das crises
Segundo o presidente da ABMRA, críticas e informações consideradas falsas costumam provocar respostas pontuais, como manifestações e cartas de repúdio. Essa postura, porém, não seria suficiente para formar reputação. “O agro tem que sair da posição reativa para efetivamente uma comunicação efetiva”, disse.
A proposta defendida por Nicodemos é manter uma comunicação contínua, com informações sobre a forma de produção, as tecnologias usadas e as histórias de quem trabalha no campo. Na visão dele, quanto mais a sociedade conhecer o setor, menor será o espaço para mitos e versões distorcidas.
O especialista também apontou que a presença do agro no cotidiano pode contribuir para sua invisibilidade. O setor está relacionado à alimentação, à economia, à cultura e aos hábitos da população, mas essa ligação nem sempre é reconhecida. Ele citou a música sertaneja como uma manifestação cultural ligada às origens do campo que passou a fazer parte da vida urbana.
A falta de conhecimento também aparece quando consumidores são questionados sobre a origem dos alimentos. Em uma pesquisa sobre a percepção do agro, houve entrevistados que não sabiam como o tomate é cultivado. Para Nicodemos, situações como essa mostram a necessidade de explicar a produção rural de maneira acessível.
Histórias e imagem do produtor
Nicodemos afirmou que o setor acumulou histórias de superação e conquistas, mas muitas permanecem restritas ao ambiente rural. O Brasil deixou de depender da importação de alimentos e se tornou uma potência agropecuária, mas essa transformação não é necessariamente conhecida por toda a população.
Na avaliação dele, a comunicação não deve criar uma narrativa artificial para defender o agro. O objetivo seria mostrar a realidade de quem produz e apresentar um produtor que precisa lidar com gestão, tecnologia e decisões diante de riscos climáticos e de mercado.
O presidente da ABMRA também criticou a permanência de uma imagem do homem do campo associada ao atraso e à falta de conhecimento. Para ele, esse estereótipo não corresponde ao produtor atual. “O produtor é um herói”, afirmou.
Jovens e canais de comunicação
Os jovens foram apontados como um dos principais desafios para o setor, por concentrarem parte da resistência ao agro e terem forte presença nas redes sociais. Nesse ambiente, opiniões e informações podem alcançar muitas pessoas rapidamente.
Nicodemos defendeu que o setor não tente impedir críticas, mas construa uma relação mais sólida com a sociedade. Ele também afirmou que a estratégia não deve abandonar televisão, rádio, revistas e veículos especializados em favor apenas das plataformas digitais.
Na avaliação do especialista, a combinação entre meios tradicionais e canais digitais ajuda a explicar como funciona a produção rural e a dar contexto às informações. A tarefa, portanto, seria ocupar de forma permanente o espaço da comunicação, em vez de agir somente quando surgem críticas ou declarações consideradas irreais.



