TRÊS PONTAS — As Fazendas Caxambu e Aracaçu transformaram parte de áreas antes destinadas ao café em bosques com espécies variadas, conectando fragmentos de mata e criando corredores ecológicos para aves e outros animais. Localizadas no sul de Minas Gerais, as propriedades também direcionaram a produção para cafés especiais e passaram a adotar práticas associadas à agricultura regenerativa.
A mudança foi conduzida pela família Chaves de Brito ao longo de 19 anos. O cultivo de café chegou à terceira geração com Carmem Lúcia Chaves de Brito, conhecida como Ucha, e seus quatro irmãos. Após a morte do pai, os irmãos optaram por unificar as terras e profissionalizar a gestão, em vez de dividir a produção.
“Deixamos de ser uma fazenda com produção de cafés convencionais e agregamos valor ao nosso produto”, afirma Ucha. A estratégia combinou a busca por qualidade com a recuperação ambiental e a intenção de produzir efeitos positivos para as pessoas que vivem e trabalham nas propriedades.
Produção e conservação
As duas fazendas somam cerca de 380 hectares. O café ocupa aproximadamente 215 hectares, enquanto quase 30% da área é preservada em reserva legal, áreas de preservação permanente, proteção de nascentes e bosques. Criado pela família, o programa Vamos Plantar acrescenta cerca de 1.000 árvores por ano à paisagem.
Os trechos considerados menos adequados à mecanização foram convertidos em bosques. Em outras áreas, a família aumentou a quantidade de plantas por hectare e aprimorou o manejo. A colheita mais rápida ajuda a retirar os frutos no ponto considerado adequado e a preservar a qualidade dos grãos.
As fazendas reaproveitam cascas, palhas e outros resíduos do café na produção de compostos orgânicos, que retornam ao solo. O manejo também inclui plantas de cobertura, insumos biológicos e acompanhamento da microbiologia. Análises periódicas orientam decisões sobre a evolução das condições do solo.
O relevo do sul de Minas limita o uso de máquinas em algumas áreas. Por isso, os produtores redesenham talhões, testam tecnologias de plantio e concentram a produção nos terrenos mecanizáveis. Nas áreas em que essa operação não é possível, antigos cafezais podem ser reflorestados e incorporados aos corredores ecológicos.
Para Paulo Fernando Chaves de Brito, responsável pela administração ao lado de outros familiares, a conservação precisa estar ligada à viabilidade econômica. “A agricultura é rentável, e ela precisa ser rentável. Essa agricultura regenerativa, mais sustentável, vem nos trazendo produtividade”, diz.
Pessoas, clima e continuidade
As propriedades mantêm 44 funcionários fixos e contratam safristas no período da colheita. Treinamentos apresentam os motivos das práticas adotadas e relacionam os resultados ambientais à rotina de produção. A atuação nas comunidades vizinhas inclui uma torre de internet e o projeto Fazenda Escola, com ações educativas para trabalhadores e moradores.
A produção é exportada em torno de 40%, com compradores e parceiros de diferentes países. Para Ucha, o cuidado com as pessoas também integra o valor percebido pelos clientes de cafés especiais no Brasil e no exterior.
As lavouras enfrentaram, nos últimos ciclos, combinações de geada, estiagem, temperaturas acima da média e granizo. A adaptação envolve escolha de cultivares, manejo do solo, renovação de áreas e planejamento. Ucha avalia que o clima representa 70% do negócio e que os 30% restantes correspondem ao campo de decisão do produtor.
A sucessão já envolve a quarta geração. Rafael Brito, filho de Paulo Fernando e sobrinho de Ucha, entrou no negócio há cerca de cinco anos, depois de crescer entre os cafezais. Ele afirma que a sustentabilidade passou a ser exigência em determinados mercados e pode agregar valor em outros, mas ressalta que a iniciativa da família começou antes dessas cobranças.
O planejamento também inclui o plantio de árvores que deverão ser aproveitadas por gerações futuras. Para Ucha, esse legado é parte da decisão de recuperar áreas, manter a produção e ampliar a presença da vegetação nas fazendas.



