A eleição brasileira é acompanhada de perto pelo governo de Donald Trump em um momento de maior atuação dos Estados Unidos na América Latina. O resultado poderá fortalecer a aproximação regional com governos de direita ou dificultar, no curto prazo, a estratégia de Washington caso Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito.
A disputa reúne Lula, do PT, que busca a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para analistas, uma vitória de Flávio consolidaria a influência de Trump no maior país da região e reforçaria a sequência recente de vitórias conservadoras no continente.
As possíveis respostas de Washington
O analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, avalia que o Brasil tem importância especial para Trump por causa da relação do presidente americano com a família Bolsonaro. Na avaliação de Winter, uma vitória de Lula preservaria o peso histórico do petista na esquerda do Sul Global e poderia levar a Casa Branca a buscar um acordo pragmático com o presidente brasileiro.
Trump afirmou que acompanha de perto a eleição, mas não declarou apoio a nenhum dos candidatos. Em conversa com jornalistas, disse: “O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante”. Depois, ao ser questionado sobre um possível apoio a Bolsonaro, repetiu que estava acompanhando o pleito de perto.
As declarações ocorreram enquanto o governo brasileiro demonstrava preocupação com uma possível interferência americana. Estados Unidos e Austrália também anunciaram o fechamento de suas embaixadas e consulados no Brasil e informaram que a segurança e a proteção dos cidadãos americanos eram prioridade.
Pressão, tarifas e alianças
Desde o início do segundo mandato, Trump passou a apoiar publicamente candidatos de direita em diferentes países. Entre os exemplos citados estão Abelardo De La Espriella, eleito na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor em Honduras. Na Argentina, a coalizão do presidente Javier Milei venceu as eleições legislativas depois de Trump sugerir que a ajuda financeira ao país dependeria do resultado.
A atuação americana na região inclui tarifas sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. Depois de uma redução das tarifas e sanções no fim do ano passado, os Estados Unidos voltaram a impor medidas contra produtos brasileiros, enquanto autoridades dos dois países tiveram vistos negados ou revogados.
Lula esteve em Washington, e Flávio Bolsonaro também foi recebido por Trump na Casa Branca. Pouco depois dessa visita, o governo americano classificou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida era defendida por Bolsonaro e enfrentava oposição do governo Lula.
Segurança no centro da estratégia
A política de segurança pública é apontada como um dos principais pontos de convergência entre Trump e governos de direita da América Latina. O governo americano criou o Escudo das Américas, iniciativa voltada à cooperação, à segurança e ao combate ao narcotráfico. O Brasil não participa do grupo, mas a expectativa apresentada por analistas é que isso poderia mudar sob um eventual governo Bolsonaro.
Trump e o secretário de Estado Marco Rubio defendem uma política externa descrita como voltada à hegemonia americana nas Américas. A interpretação atual da Doutrina Monroe, de 1823, passou a ser chamada de “Doutrina Donroe”, em referência ao primeiro nome de Trump. O governo americano afirma buscar a restauração da predominância dos Estados Unidos no hemisfério ocidental.
O cientista político Edgar Franco-Vivanco, professor da Universidade de Michigan, afirma que a insatisfação com a violência e com o desempenho de governos de esquerda abre espaço para candidatos conservadores. Ele cita Nayib Bukele, presidente de El Salvador, como um líder eleito com a promessa de combater a criminalidade, embora criticado por supostos abusos de direitos humanos.
Uma disputa também influenciada pelo desgaste político
O especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor da universidade Berea College, considera que o movimento à direita não é explicado apenas por ideologia. Para ele, o descontentamento com os mandatários em exercício também pesa nas escolhas eleitorais.
A região já alternou períodos de predominância da esquerda e da direita, incluindo a chamada Maré Rosa no início dos anos 2000 e a eleição de candidatos esquerdistas em vários países no começo da década atual. A diferença, segundo os analistas, é que a atual mudança ocorre sob maior pressão dos Estados Unidos, com tarifas, sanções e operações militares no continente.
Mesmo sem apoio formal a Flávio Bolsonaro, a preferência de Trump por uma vitória do senador é considerada provável por causa da proximidade política entre os dois. A resposta de Lula às medidas americanas tem sido a defesa da soberania brasileira. Analistas avaliam que uma declaração mais contundente de Trump poderia acabar favorecendo o presidente brasileiro, em vez de seu adversário.



