Um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes sobre a existência de um movimento evangélico contrário ao título de Padroeira do Brasil, feito em 24 de setembro de 2026 durante o programa GloboNews Em Pauta, provocou debate nas redes sociais. A emissora pediu desculpas após pressão de bolsonaristas e informou que o projeto de lei mencionado havia sido arquivado em 2008.
A proposta, porém, chegou a ser apresentada pelo deputado e pastor Victório Galli, posteriormente nomeado assessor especial do governo de Jair Bolsonaro. A declaração de Flávio Bolsonaro de que pretende decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” também foi relacionada, no comentário, ao ativismo antimariano de parte da comunidade evangélica.
A imagem e o título nacional
A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi esculpida em terracota por volta do ano 1600 e encontrada em 1717 por três pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul. Segundo a tradição católica, a cabeça apareceu na segunda tentativa de pesca, depois de o corpo ter sido retirado da água. O episódio passou a ser interpretado como um sinal de intervenção divina.
A escultura, originalmente associada a Nossa Senhora da Conceição, foi venerada na casa do pescador Domingos Garcia e passou a ser conhecida como Nossa Senhora Aparecida. A peça tem cerca de 36 centímetros de altura e pesa 2,5 quilos. Em 1930, um decreto assinado pelo Papa Pio XI oficializou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
A devoção levou à construção da primeira Basílica de Nossa Senhora Aparecida, iniciada em 1834 e inaugurada em 1888. A nova Catedral Basílica começou a ser construída em 1955 e foi transformada em Santuário Nacional em 1983. O local recebe, em média, 12 milhões de peregrinos por ano.
O atentado de 1978
Na noite de 16 de maio de 1978, durante um blecaute provocado por uma tempestade, Rogério Marcos de Oliveira invadiu o espaço reservado à imagem na Basílica Velha de Aparecida. Ele quebrou o vidro protetor e retirou a escultura. Ao deixar o nicho, a cabeça se soltou e se esfarelou. Depois, o corpo foi arremessado ao chão e dividido em mais de 200 pedaços.
O padre Antônio Lino Rodrigues afirmou inicialmente que se tratava de uma réplica, mas o bispo de Aparecida, Dom Geraldo Penido, confirmou no dia seguinte que a peça original havia sido destruída. Rogério, que havia se ferido, foi levado para atendimento médico e depois à delegacia. A Igreja Católica não apresentou denúncia porque ele sofria de transtornos psiquiátricos, e não foi aberto inquérito.
A restauração foi realizada por Maria Helena Chartuni, do Museu de Arte de São Paulo. O trabalho durou mais de dois meses, incluindo a reconstrução de parte do rosto. Em agosto de 1978, a imagem retornou ao santuário.
Outros ataques e a disputa política
O episódio de 1978 foi seguido por outras agressões a imagens religiosas. Em 12 de outubro de 1995, o pastor Sérgio Von Helder chutou e socou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa exibido ao vivo pela Rede Record. Ele foi condenado por discriminação religiosa e vilipêndio a objeto de culto.
Também foram registrados ataques em 2012, 2014, 2016, 2017, 2021 e 2022, incluindo destruição de imagens em Águas Lindas de Goiás, Minas Gerais, Duque de Caxias, Botucatu, Santo Antônio da Platina e Praia Grande.
A retórica anticatólica também apareceu no discurso de lideranças políticas. Em 2021, o deputado estadual Frederico D’Ávila insultou o arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, e fez críticas ao Papa Francisco e à CNBB. Em 12 de outubro de 2022, Jair Bolsonaro visitou o Santuário Nacional de Aparecida durante a campanha eleitoral. A presença provocou críticas de setores da Igreja Católica, que contestaram o uso político do espaço religioso.




