A nutricionista Laura Oliveira, de 25 anos, usa ChatGPT, Gemini e Claude para estudar, trabalhar e criar imagens. As ferramentas também entraram em decisões pessoais: ela conversa com os chatbots sobre situações do cotidiano, pede opiniões e consulta até qual roupa usar.
Quando fica em dúvida sobre a própria conduta, Laura recorre especialmente ao ChatGPT. A disponibilidade permanente e a sensação de não ser julgada fazem com que, em algumas ocasiões, ela escolha falar com a inteligência artificial em vez de procurar amigos ou familiares. “Eu não colocaria ele nesse lugar de psicólogo, mas é como um amigo”, define.
A aparência de acolhimento
O psiquiatra Carlos Cais, sócio-fundador e conselheiro sênior da clínica Elibrè, afirma que esse tipo de vínculo resulta da combinação entre uma necessidade humana e a forma como a tecnologia se comunica. As pessoas precisam de interação com outros seres humanos, enquanto os sistemas apresentam um assemelhamento ao humano que favorece a atribuição de empatia, educação e acolhimento às máquinas.
Cais compara a situação ao personagem Wilson, a bola de vôlei do filme Náufrago (2000), estrelado por Tom Hanks. Na história, uma pessoa isolada cria um rosto na bola e passa a conversar com ela. Para o psiquiatra, a comparação mostra como alguém pode estabelecer uma parceria afetiva com um objeto sem necessariamente perder o contato com a realidade.
Apesar da linguagem convincente, a inteligência artificial funciona a partir de uma base de dados e de probabilidades. Isso faz com que o sistema produza uma resposta considerada provável para aquele usuário, sem possuir senso crítico ou empatia. A resposta pode soar como conselho, mas não representa uma avaliação humana da situação.
O sinal de alerta
Conversar com uma IA não é necessariamente prejudicial, segundo Cais. O problema aparece quando o chatbot começa a ocupar o espaço das relações com outras pessoas. A ferramenta pode oferecer uma sensação temporária de acolhimento, mas não identifica como um ser humano a existência de um problema nem aponta, da mesma maneira, a necessidade de buscar ajuda.
O alerta aumenta quando o uso deixa de ser curiosidade, diversão ou recurso para organizar pensamentos e passa a ser percebido como indispensável. “Ela está ocupando um lugar inapropriado. Já acende um sinal amarelo ou vermelho”, afirma o psiquiatra.
Validação sem questionamento
Outro ponto destacado por Cais é que a IA tende a validar o usuário. Em relações humanas saudáveis, o acolhimento pode vir acompanhado de perguntas e ponderações. Já uma ferramenta que confirma interpretações recorrentes pode reforçar entendimentos distorcidos, como a percepção de que alguém é sempre vítima das circunstâncias ou nunca participa dos problemas que enfrenta.
Por isso, o psiquiatra recomenda que questões psicológicas sejam discutidas com outra pessoa, de preferência um profissional capaz de fazer questionamentos. A IA pode ajudar alguém a organizar pensamentos e sentimentos antes de uma consulta, mas o uso precisa preservar o contato humano. Para Cais, o resultado depende da maneira como a pessoa utiliza a ferramenta.



