NOVA YORK — Países em desenvolvimento defenderam maior participação na criação das regras para a inteligência artificial durante uma sessão do Conselho de Segurança da ONU. Líderes da África, da Ásia e da América Latina alertaram que a concentração do desenvolvimento e da regulamentação da tecnologia nos países ricos pode ampliar as desigualdades globais.
A ministra das Relações Exteriores da República Democrática do Congo, Thérèse Kayikwamba Wagner, afirmou que os países em desenvolvimento não devem ser apenas usuários de tecnologias criadas em outros lugares nem receber normas elaboradas sem participação adequada. Ela também defendeu que as transformações tecnológicas do século 21 não repitam desequilíbrios econômicos anteriores.
O debate contou com a presença de Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic. Os executivos defenderam a cooperação entre governos para administrar a inteligência artificial. O ministro das Relações Exteriores de Bangladesh, Khalilur Rahman, que presidiu a discussão, destacou o crescimento da atenção internacional ao tema: há quatro anos, a IA havia sido mencionada na sala por apenas cinco delegações; este ano, 128 delegações abordaram o assunto.
Governança e desenvolvimento
Ao encerrar a sequência de discursos, Rahman resumiu a discussão como uma questão de governança: quem projeta a tecnologia, quem se beneficia, quem assume os riscos e quem responde quando ocorrem danos.
O Banco Mundial afirmou, em um relatório divulgado no mês passado, que a IA pode permitir aos países em desenvolvimento alcançar um século de desenvolvimento em uma década, desde que avancem rapidamente em energia, conectividade e qualificação. O Fundo Monetário Internacional disse em julho que a tecnologia pode impulsionar a economia da África Subsaariana em cerca de 4% na próxima década, sob as circunstâncias adequadas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, comparou os riscos da inteligência artificial aos efeitos das mudanças climáticas e defendeu que os países em desenvolvimento tenham voz igual nos dois debates. Para ele, as duas questões fazem parte de uma disputa mais ampla sobre quem detém o poder, quem é privado dele e como ele é utilizado.
Guterres e líderes do Sul Global pediram respostas coordenadas, em vez de medidas nacionais isoladas. A posição contrastou com a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou os riscos da IA como exagerados e os chamou de uma “farsa” e uma “conspiração doentia”.
O primeiro-ministro de Belize, John Briceño, afirmou que uma IA bem regulada pode ampliar o acesso ao conhecimento e melhorar serviços públicos. Sem regulação adequada, segundo ele, a tecnologia pode aprofundar desigualdades, expor sistemas críticos, substituir trabalhadores e aumentar a dependência de tecnologias e regras criadas no exterior.



