BUENOS AIRES — A pobreza atingiu 32,3% da população da Argentina no primeiro semestre de 2026, acima dos 28,2% registrados no período anterior, informou o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). O resultado representa a primeira alta desde que o governo de Javier Milei desacelerou a inflação.
Estimativas da Universidade Católica da Argentina (UCA) indicam que a taxa pode chegar a 35% até o final do ano. O número reverteria parte da redução registrada em 2025, quando a pobreza havia recuado para 28%, e aumentaria a pressão sobre Milei pouco mais de um ano antes da próxima eleição presidencial.
Agustín Salvia, diretor do Observatório Argentino da Dívida Social da UCA, afirmou que, nos quatro trimestres anteriores, entre 400 mil e 450 mil pessoas entraram na pobreza a cada período. Segundo ele, a taxa atual está entre 31% e 32%.
Mesmo com a alta, o índice continuaria abaixo dos níveis observados durante o primeiro ano do mandato de Milei. Para analistas, porém, o resultado indica que os efeitos sociais positivos da desaceleração da inflação perderam força. Novos avanços dependeriam de uma criação mais intensa de empregos e do crescimento dos salários reais.
Pressão sobre famílias e eleitores
Organizações sociais e profissionais de assistência social relatam aumento das dificuldades para pagar as contas. Em um salão comunitário nos arredores de Buenos Aires, Ana Barreto administra um clube de troca criado em agosto, em Villa Astolfi. Os moradores trocam produtos sem usar dinheiro, com procura por óleo de cozinha, açúcar, farinha e macarrão. As mercadorias são trocadas principalmente por roupas usadas e utensílios domésticos.
A deterioração das condições econômicas também afeta o apoio ao presidente entre eleitores de baixa renda. Uma pesquisa da AtlasIntel realizada em setembro apontou que a desaprovação nesse grupo subiu para quase 70%, enquanto a aprovação caiu para menos de 30%. A pesquisa considera de baixa renda quem recebe até cerca de US$650 por mês. Um ano antes, os índices eram de 57% e 37%, respectivamente. No conjunto do país, 58% desaprovavam Milei e 38,1% o aprovavam.
Milei chegou ao poder no final de 2023 com apoio expressivo de eleitores de baixa e média renda, após anos de inflação elevada. O governo reduziu a velocidade da alta de preços e estabilizou as finanças públicas, mas adotou medidas que pressionaram as famílias, como cortes nos salários do setor público, retirada de subsídios para transporte e serviços públicos e flexibilização das regras de importação.
Emprego e consumo
Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em San Fernando, ao norte de Buenos Aires, relatou queda nas vendas porque os clientes perderam poder de compra. Ele afirmou que passou de dez carrinhos de mão vendidos para um.
O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre deste ano, contra 7,6% no mesmo período de 2025. O emprego privado caiu por 13 meses consecutivos, enquanto a recuperação da renda das famílias ficou, em grande parte, estagnada.
O governo sustenta que a austeridade é necessária para eliminar déficits orçamentários, fortalecer as finanças públicas e criar condições para um crescimento sustentável. Também afirma que não aumentará os gastos nem renovará subsídios. Um porta-voz declarou que o presidente manterá o programa e não flexibilizará a política monetária para ganhar eleições.



