A economia perdeu espaço no debate eleitoral em meio à sucessão de escândalos financeiros e institucionais. Embora o governo registre baixo desemprego, juros em trajetória de queda e inflação relativamente sob controle, o custo de vida continua entre as principais preocupações dos eleitores.
O cenário combina melhora em alguns indicadores com dificuldades no orçamento das famílias. O endividamento elevado e o custo do crédito pressionam a renda, enquanto a previsão de crescimento econômico para 2026 caiu para 2%, conforme o governo.
Para o economista e sociólogo Gilson Schwartz, professor da USP, as estatísticas indicam uma economia em bom desempenho, mas essa melhora não se converte necessariamente em satisfação ou apoio ao governo. Ele avalia que outras dimensões influenciam as expectativas políticas.
Violência e custo de vida
A violência aparece como o principal problema do Brasil para cerca de 30% dos eleitores. Corrupção, saúde e economia vêm na sequência, com aproximadamente 14% cada, embora a ordem varie entre os levantamentos. Na pesquisa mais recente da Quaest, realizada em setembro, a situação econômica foi mencionada por 19% dos entrevistados.
O cientista político Carlos Melo, do Insper, afirma que a inflação está sob controle, mas os preços permanecem em um nível elevado. Para ele, o desafio é elevar a renda por meio do aumento da produtividade, e não apenas por decisões sobre o salário mínimo, que poderiam pressionar a inflação sem resolver o problema estrutural.
No campo econômico, Lula e o senador Flávio Bolsonaro apresentam propostas diferentes. O candidato do PL defende a revisão da Reforma Tributária e um corte amplo de despesas públicas, começando pelo funcionalismo, em uma linha associada às experiências de Javier Milei e Donald Trump. Lula, por sua vez, mantém o foco no arcabouço fiscal e procura equilibrar as contas pela arrecadação, sem priorizar a redução dos gastos.
A dívida pública já supera 82% do PIB brasileiro, a maior taxa em cinco anos. Nas famílias, quase um terço da população está endividado — proporção que supera a metade entre os adultos. Entre os fatores citados estão o acesso fácil a crédito com juros altos, as apostas online e o aumento dos custos de vida. O programa Desenrola e as medidas contra as bets ainda não produziram, para muitos eleitores, os resultados esperados.
Ausência de uma agenda de longo prazo
Schwartz avalia que o debate econômico costuma ser reduzido a promessas de gastar mais ou menos, sem apresentar uma combinação de juros, taxa de câmbio, crescimento, dívida e déficit públicos. Na avaliação dele, nem Lula nem Flávio Bolsonaro oferecem uma proposta de modelo de desenvolvimento para o país.
A discussão sobre o futuro também aparece pouco nas campanhas. Carlos Melo cita como temas ausentes a guerra comercial, a diversificação de parceiros, os efeitos dos conflitos internacionais nas cadeias globais de abastecimento e a atração de investimentos para setores com potencial no Brasil, como os minerais críticos.
O cientista político também aponta a falta de debate sobre o papel do Brasil em um cenário marcado por alta tecnologia, inteligência artificial, divisão geopolítica e grupos de países hegemônicos em suas regiões. Para ele, a eleição concentra-se no presente e não apresenta uma agenda consistente para o futuro do país.



