Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Estudo estima perda de até R$ 22 bilhões nas contas públicas com bets

Pesquisa atribui a perda ao menor consumo das famílias, enquanto associação do setor contesta as premissas e os cálculos usados.

Estudo estima perda de até R$ 22 bilhões nas contas públicas com bets
Foto: Werther Santana/Estadão

Um estudo do economista Guilherme Klein estima que o avanço das bets provocou uma perda líquida de R$ 22 bilhões para as contas públicas em 2025. O cálculo considera a redução do consumo das famílias, associada ao endividamento causado pelas apostas, e desconta os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente das plataformas no ano passado.

Klein, professor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (MADE/USP), calculou que as casas de apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica neste ano. Segundo a estimativa, o impacto teria reduzido em pelo menos R$ 31,1 bilhões a arrecadação pública.

O governo anunciou na sexta-feira, 25, a proibição das bets no País. As plataformas haviam gerado R$ 9 bilhões em receitas para os cofres públicos no ano passado e R$ 9,9 bilhões entre janeiro e agosto deste ano. Para Klein, porém, a arrecadação direta não compensou as perdas provocadas pela diminuição do consumo.

“A medida é correta”, afirmou o economista. Ele avaliou que uma taxação maior poderia ser alternativa, mas considerou a proibição a melhor opção diante do tamanho dos efeitos negativos estimados.

Como o cálculo foi feito

A análise partiu de uma estimativa do Centro Celso Furtado segundo a qual as famílias transferiram R$ 62,5 bilhões para as plataformas no ano passado. O valor é líquido: representa a diferença entre o total apostado e os ganhos recebidos pelos jogadores.

Sobre esse montante, Klein aplicou a chamada propensão a consumir, parâmetro utilizado na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O objetivo foi calcular quanto do dinheiro perdido pelas famílias deixaria de circular na economia por meio do consumo.

O estudo também levou em conta o efeito multiplicador dos gastos e descontou empregos e renda gerados direta e indiretamente pelas empresas de apostas. Em outra frente, uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), intitulada “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, estima em R$ 30,4 bilhões por ano o custo social relacionado à saúde e aos danos associados às apostas e aos jogos de azar no Brasil. Desse total, R$ 17 bilhões corresponderiam a mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões à perda de qualidade de vida decorrente de depressão e R$ 3 bilhões a tratamentos médicos para depressão.

Contestação do setor

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contesta a conclusão e afirma que o estudo é um cenário ilustrativo dependente das hipóteses adotadas, não uma estimativa causal dos efeitos das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB). A entidade diz que seriam necessários contrafactual explícito, tratamento simétrico dos setores comparados, análise de sensibilidade e demonstração de causalidade.

A associação também questiona o valor usado como ponto de partida. Em um trecho, menciona R$ 65,5 bilhões em transferências das famílias para as plataformas, enquanto o estudo considera R$ 62,5 bilhões. A ANJL cita estimativas da LCA Consultoria Econômica para 2024, que colocavam o volume entre R$ 24 bilhões e R$ 35 bilhões, e afirma que alcançar R$ 62,5 bilhões exigiria duplicar ou triplicar o mercado em 12 meses.

Para a entidade, não é possível afirmar com a robustez apresentada que as bets tenham retirado R$ 120 bilhões da economia brasileira em 2025. A ANJL também questiona a aplicação de multiplicadores sobre todo o valor transferido, como se os recursos fossem integralmente convertidos em consumo doméstico.

Reação das empresas

Carlos Akira Sato, especialista em mercados regulados e jogo responsável, afirmou que a restrição de atividades lícitas não deveria ser considerada positiva. Ele atribuiu a medida à falta de preparo da sociedade para lidar com um segmento que se expandiu rapidamente, especialmente em número de pessoas envolvidas e volume financeiro movimentado.

As empresas do setor pagam outorgas de R$ 30 milhões para operar durante cinco anos. Segundo Carlos Lima, presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), algumas companhias desembolsaram valores superiores porque a autorização permite operar com duas marcas; para utilizar mais marcas, há uma cobrança adicional.

Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, disse que o setor cumprirá as regras impostas, mas considera a proibição um erro. A associação avalia recorrer à Justiça e não descarta pedir indenização por danos materiais e morais. A conversão da medida provisória em lei ainda dependerá de aprovação pelo Congresso Nacional, e o setor afirma que haverá 120 dias para apresentar os efeitos que atribui ao fim do mercado regulado.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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