BRASÍLIA — O governo Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, no início de setembro, que havia zerado a fila de espera por benefícios do INSS. A medida cumpre uma promessa de campanha feita nas eleições de 2022, mas ainda havia 218 mil pedidos aguardando resposta por mais de 45 dias, prazo previsto em lei.
O Ministério da Previdência afirma que o tempo médio de análise está em 34 dias e que o atendimento passou a seguir uma lógica de fluxo, e não de fila. A pasta considera a capacidade do INSS de analisar os pedidos em comparação com o volume de novas solicitações.
Como o órgão contabiliza os pedidos
A fila é formada por requerimentos de segurados que ainda não tiveram uma decisão final. Pela legislação dos planos de benefícios da Previdência Social, o primeiro pagamento deve ser feito até 45 dias depois da apresentação da documentação necessária.
O Ministério da Previdência organiza os dados por tempo de espera e por etapa de tramitação. Há pedidos que dependem de providências do segurado, análises de benefícios assistenciais e previstos em leis específicas, perícia médica federal ou decisão do próprio INSS.
O pico registrado em fevereiro foi de 3,128 milhões de solicitações. Naquele mês, os pedidos que dependiam de alguma ação do INSS chegaram a 1.173.556, ante 963.684 no mês anterior, alta de 21,8%. Ainda assim, 55,8% do total estava dentro do prazo de 45 dias.
Em julho, o benefício por incapacidade, antigo auxílio-doença, concentrava 45,4% dos requerimentos. Desde março, os pedidos de Benefício de Prestação Continuada e de benefícios previstos em legislação específica superavam os de aposentadoria. O BPC é destinado a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.
As solicitações de salário-maternidade também aumentaram proporcionalmente. Em janeiro de 2026, elas representavam 16,7% do total; em julho, eram 16,5%.
Critérios usados pelo governo
Segundo o Ministério da Previdência, o anúncio de que a fila foi zerada se baseia em dois parâmetros: o tempo médio de concessão, que ficou em 34 dias em agosto, e a relação entre a capacidade de análise do INSS e a entrada de novos pedidos.
Até agosto, o principal indicador era a quantidade de solicitações dentro do prazo legal de 45 dias. Esse conjunto, porém, ainda não havia sido eliminado. Em agosto, o estoque de pedidos iniciais ficou abaixo do volume de novas solicitações, situação que o ministério interpreta como existência de fluxo de atendimento.
O ministro da Previdência, Wolney Queiroz, afirmou que os processos com mais de 45 dias envolvem análises mais complexas, como as do BPC, e podem incluir períodos em que o segurado precisa resolver pendências. “São processos mais complexos, com análises mais longas como é o caso do BPC, que demanda a realização de perícia médica e biopsicossocial”, disse.
Avaliação de especialistas e do ministério
O economista Fabio Giambiagi avaliou que a administração da fila melhorou depois da saída de Carlos Lupi, demitido em maio de 2025 e substituído por Wolney Queiroz. Para Giambiagi, seria possível reduzir os pedidos em análise dentro de 45 dias para uma faixa entre 200 mil e 300 mil e eliminar os requerimentos acima desse prazo quando não houvesse pendências do segurado.
Wolney Queiroz contestou essa avaliação e afirmou que entram 1,3 milhão de pedidos todos os meses. Segundo o ministro, o tempo médio de atendimento no país é de 34 dias.
Tiago Sbardelotto, analista sênior da XP, reconheceu melhora nos últimos meses, mas demonstrou ressalvas quanto ao anúncio. Ele afirmou que o percentual histórico de deferimentos gira em torno de 58%, enquanto, nos meses recentes, ficou abaixo de 50%.
Na avaliação do analista, a aceleração das análises pode ter levado à negativa de benefícios por falta de documentos ou outros detalhes. Esses pedidos podem voltar à administração pública, com nova solicitação, ou ser levados à Justiça.
O secretário-executivo do Ministério da Previdência, Felipe Cavalcante e Silva, afirmou que os requerimentos cresceram cerca de 40% desde 2023. Ele negou que tenha havido indeferimento em massa e disse que os benefícios devem ser concedidos a quem cumpre os requisitos legais. Para o secretário, parte do aumento dos pedidos pode envolver pessoas que não preenchiam integralmente as condições exigidas.



