O discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) pode ampliar a distância entre o presidente e as prioridades do eleitorado na campanha à reeleição, segundo especialistas em política e relações internacionais. A avaliação considera que a soberania nacional, tema que deve ser destacado pelo presidente, tem mobilizado menos os eleitores do que segurança pública, combate à corrupção e problemas econômicos.
Lula deve abrir os pronunciamentos da 81ª Assembleia Geral, que reúne 193 Estados-membros, nesta terça-feira, 22. Esta será a 10ª participação dele no evento. Na quinta-feira, 17, em entrevista à Rádio Itatiaia, o presidente afirmou que defenderá que o Brasil não se curvará à arrogância e fará o que for de interesse do povo brasileiro.
Também estão previstos no discurso temas como a economia global, a falta de representatividade do Conselho de Segurança da ONU e as guerras. Para o cientista político Maurício Santoro, a abordagem combina a tradição dos discursos brasileiros no evento — com uma leitura do cenário internacional — a um balanço de ações do governo voltado ao público doméstico.
Soberania e disputa eleitoral
A soberania integra a estratégia de campanha de Lula em meio à relação estremecida com os Estados Unidos, associada às sanções econômicas e às medidas contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). No ano passado, o tema teria contribuído para elevar a popularidade do presidente, enquanto a oposição defendia as tarifas de Donald Trump.
Santoro afirma, porém, que o eleitorado não tem respondido da mesma forma nesta eleição. Na avaliação dele, o escândalo do Banco Master também enfraquece o discurso, ao aproximar a imagem do governo de denúncias de corrupção atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e da associação entre Lula e o ministro Alexandre de Moraes, que teria trocado mensagens com o investigado.
Para o especialista, a viagem permite que Lula se afaste temporariamente da crise envolvendo o Supremo e adote uma posição associada ao papel de presidente, com foco nos interesses brasileiros no exterior. Ainda assim, ele considera que a pauta pode ficar distante do que produz maior impacto na disputa eleitoral.
Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também aponta risco de saturação retórica. Embora o tema ajude na mobilização da base aliada e na construção de uma abordagem nacionalista contra a oposição, sua repetição pode reduzir o efeito sobre os eleitores.
A professora avalia ainda que a insistência nas sanções e tarifas mantém em evidência os efeitos negativos sobre as atividades econômicas internas e pode gerar desgaste ao atribuir medidas externas à articulação de adversários políticos. A discussão diplomática no palanque também afastaria a campanha de áreas como programas sociais e dados de emprego, abrindo espaço para Flávio Bolsonaro concentrar críticas em segurança pública e gestão fiscal.



