O câncer de próstata não leva necessariamente à impotência ou à incontinência. Avanços no diagnóstico e na cirurgia robótica permitem discutir, além do controle da doença, estratégias para preservar a qualidade de vida dos pacientes com indicação cirúrgica.
O Brasil deve registrar 77.920 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, conforme estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Entre os homens brasileiros, é o câncer mais incidente quando os tumores de pele não melanoma são excluídos.
Para Ricardo Brandina, urologista, cirurgião robótico, professor adjunto do Departamento de Urologia da PUCPR e coordenador do Programa de Cirurgia Robótica do Hospital Evangélico de Londrina, o receio de perder a função sexual ou o controle da urina costuma aparecer antes mesmo das dúvidas sobre a cura. “Precisamos tratar o homem inteiro, e não apenas a próstata”, afirma.
O papel da cirurgia robótica
As plataformas atuais oferecem visão tridimensional ampliada, instrumentos articulados e recursos que favorecem movimentos mais precisos em uma área onde nervos, vasos sanguíneos, uretra e estruturas ligadas à continência ficam próximos. A tecnologia, porém, não substitui a experiência do médico.
“O robô não faz a cirurgia. Ele não decide onde cortar, o que preservar ou qual plano anatômico seguir”, explica Brandina. Segundo o especialista, treinamento, experiência e equipe continuam determinantes para a condução do procedimento.
Alterações na continência urinária e na função erétil podem ocorrer após cirurgias para câncer de próstata, mas os resultados variam. Idade, função sexual anterior, anatomia, localização e extensão do tumor, possibilidade de preservar feixes neurovasculares e técnica utilizada influenciam a recuperação.
Quando há indicação oncológica e condições anatômicas favoráveis, técnicas de preservação dos feixes neurovasculares podem ser consideradas para tentar manter estruturas relacionadas à função erétil. Estratégias de reconstrução do aparelho urinário também podem contribuir para a recuperação da continência. Não há, contudo, um resultado que possa ser previsto da mesma forma para todos os pacientes.
Investigação deve ser individualizada
O câncer de próstata frequentemente não causa sintomas nas fases iniciais. A ausência de sinais não garante que não exista doença. Alterações urinárias, por outro lado, também podem estar associadas a condições benignas, como a hiperplasia prostática.
O INCA relaciona idade avançada, histórico familiar e excesso de gordura corporal a maior risco de desenvolvimento da doença. A decisão sobre investigar com PSA, exame físico e outros recursos deve considerar o perfil de cada homem, incluindo histórico familiar, fatores de risco, expectativa de vida e possíveis benefícios e riscos da investigação.
A ressonância magnética multiparamétrica pode ajudar na avaliação da próstata e na definição dos próximos passos quando há alterações que precisam de investigação, inclusive quanto à necessidade de biópsia. Também é importante não interpretar o PSA isoladamente: um resultado elevado pode ter diferentes causas e não significa automaticamente câncer.
Homens com pai ou irmão que tiveram câncer de próstata, especialmente em idade mais jovem, devem informar o histórico ao médico. A conversa com o urologista não precisa esperar o surgimento de sintomas.
Com a aproximação do Novembro Azul, a discussão sobre a saúde masculina inclui não apenas a recomendação de exames, mas também diagnóstico precoce, avaliação individualizada e conhecimento das possibilidades de tratamento. Para quem recebe o diagnóstico, planejar o cuidado considerando o controle do câncer e a qualidade de vida pode ajudar na tomada de decisões.
Brandina afirma que, quando a doença é identificada em um cenário favorável e existe indicação adequada, o tratamento pode buscar a cura com preservação máxima da qualidade de vida. O acompanhamento deve considerar as características clínicas e anatômicas de cada paciente.



