Uma pesquisa indica que pessoas com surdez profunda desde a infância organizam de maneira diferente áreas do cérebro ligadas ao processamento visual. A principal alteração está na forma como o sistema nervoso representa a visão periférica, responsável por perceber acontecimentos fora do ponto central do olhar.
O estudo comparou 16 adultos com surdez profunda desde cedo a 16 adultos ouvintes de idade semelhante. Com o uso de ressonância magnética funcional, os pesquisadores analisaram como cada grupo representava diferentes regiões do campo visual.
Mais atenção às áreas laterais
Os participantes surdos apresentaram uma representação maior da visão periférica distante em duas estruturas envolvidas no processamento da visão: o córtex visual primário e o núcleo geniculado lateral, que participa do encaminhamento das informações visuais.
O resultado sugere que o cérebro pode redistribuir recursos para perceber melhor movimentos e mudanças que acontecem nas laterais, sem que isso signifique uma melhora geral da visão. A adaptação parece ser específica para o processamento da visão periférica.
A visão periférica permite notar pessoas se aproximando, obstáculos e alterações no ambiente sem que seja necessário olhar diretamente para elas. Para quem não ouve desde os primeiros anos de vida, a percepção visual pode assumir uma função mais importante na identificação desses acontecimentos.
Adaptação ao longo do desenvolvimento
A pesquisa relaciona essa reorganização à neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de se adaptar às experiências e às demandas do ambiente. Sem a informação sonora desde cedo, o sistema visual parece ter passado a dar mais atenção às regiões mais afastadas do centro do olhar.
O trabalho foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), e a Universidade de Sheffield, que participou da pesquisa, também divulgou os resultados. A investigação contribui para o entendimento de como as experiências ao longo do desenvolvimento podem influenciar a organização cerebral.



