BERLIM — A tradição política de esquerda em Berlim foi formada por revoltas, greves, organizações operárias e movimentos de moradia que atravessaram diferentes períodos da história alemã. Ainda na década de 1840, a cidade já abrigava uma das primeiras entidades de trabalhadores do país e, desde então, tornou-se palco de conflitos sociais e disputas políticas.
Durante a Revolução de Março de 1848, foi criada a Fraternidade Geral dos Trabalhadores, enquanto Berlim se consolidava como um dos centros do movimento operário alemão. Nas décadas de 1870 e 1880, a expansão das fábricas metalúrgicas e têxteis ampliou a população trabalhadora e alterou a dinâmica política local, antes dominada por liberais burgueses.
Greves e radicalização política
A repressão promovida pelo chanceler Otto von Bismarck contribuiu para a radicalização do movimento trabalhista. Embora tenha criado medidas associadas ao primeiro Estado de bem-estar social moderno, Bismarck também proibiu organizações socialistas e comunistas, jornais, reuniões públicas e sindicatos independentes.
Com a queda de Bismarck em 1890, as leis antissocialistas foram revogadas. As ideias de Karl Marx e Friedrich Engels passaram a influenciar um movimento socialista de massa. O Partido Social-Democrata (SPD), criado em 1875, alcançou em Berlim resultados eleitorais superiores aos registrados em outras regiões da Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial.
A decisão do SPD e dos sindicatos de não se oporem à guerra defendida pelo imperador Guilherme 2º provocou desgaste entre trabalhadores. A partir de 1916, porém, a capital passou a concentrar grandes greves contra o conflito. Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo e outros militantes fundaram na cidade a Liga Espartaquista, organização clandestina que mais tarde daria origem ao Partido Comunista da Alemanha (KPD).
A falta de alimentos, a crise econômica e os efeitos da guerra levaram cerca de meio milhão de trabalhadores de Berlim à Greve de Janeiro de 1918. A mobilização foi conduzida pelos Delegados Revolucionários, com apoio da Liga Espartaquista, e o mesmo grupo participou da derrubada do imperador em 9 de novembro de 1918.
A Revolta Espartaquista de 1919 tentou derrubar o governo provisório e criar uma república baseada em conselhos de trabalhadores. A repressão deixou dezenas de mortos, entre eles Liebknecht e Luxemburgo, assassinados por integrantes de milícias paramilitares de direita. O episódio aprofundou a divisão da esquerda.
Na República de Weimar, Berlim continuou como centro de disputas radicais. Bairros operários como Wedding, Kreuzberg e Neukölln reuniam milhares de pessoas em condições precárias, enquanto as grandes fábricas favoreciam a organização coletiva. Em 1929, o chamado Maio Sangrento terminou com mais de 30 mortos depois que a polícia abriu fogo contra manifestações do Dia do Trabalhador e contra prédios residenciais.
Entre 1929 e 1933, o avanço do desemprego reduziu o apoio ao SPD. Parte dos trabalhadores se aproximou do KPD, conhecido como o Partido dos Desempregados, enquanto outros aderiram a grupos de extrema direita, como a Sturmabteilung (SA), ligada ao Partido Nazista.
Do movimento estudantil à luta por moradia
Após a chegada dos nazistas ao poder em 1933, muitos líderes trabalhistas foram mortos ou exilados. No pós-guerra, Berlim foi dividida entre dois sistemas políticos. Berlim Oriental tornou-se a capital da República Democrática Alemã (RDA), enquanto Berlim Ocidental passou por desindustrialização, enfraquecimento do movimento operário e mudança de orientação do SPD.
Durante a Guerra Fria, jovens de esquerda se mudaram para Berlim Ocidental para evitar o serviço militar. A Universidade Livre de Berlim tornou-se um centro do movimento estudantil. Em 1967, o assassinato do estudante Benno Ohnesorg por um policial, durante um protesto contra a visita do xá do Irã, contribuiu para a radicalização de uma geração envolvida nos protestos de 1968.
No início da década de 1970, a falta de moradias levou estudantes, aprendizes e famílias migrantes a ocupar edifícios vazios. A mobilização combinava reivindicações habitacionais e críticas ao modelo de propriedade urbana.
Atualmente, a gentrificação e o aumento da pressão sobre os moradores sustentam movimentos de inquilinos considerados os mais fortes e radicais da Alemanha. Em 2021, 59% dos eleitores aprovaram, em referendo, a expropriação de imóveis de empresas privadas do setor imobiliário. A campanha ajudou a recolocar ideias políticas baseadas em classe no debate local.
A crise habitacional também dominou a campanha eleitoral estadual. Neste domingo (20/09), os moradores escolherão a nova Assembleia Legislativa, responsável por definir o próximo prefeito da cidade-estado.
As pesquisas citadas colocam A Esquerda com 21% das intenções de voto, à frente da União Democrata-Cristã (CDU), com 20%, e da Alternativa para a Alemanha (AfD), com 18%. Os Verdes aparecem com 16%, enquanto o SPD, que governou Berlim por quase 22 anos consecutivos, registra 12%.



