A eventual proibição das bets no Brasil poderia aliviar o endividamento de parte das famílias, mas também reduzir a arrecadação pública e ampliar a participação do mercado ilegal. As projeções reúnem estimativas de consultorias, entidades do varejo e representantes do setor de apostas.
De acordo com estudo da LCA Consultores divulgado em abril, os gastos com bets correspondem a 0,46% do orçamento das famílias brasileiras e a 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB). O levantamento estima gasto médio mensal de R$ 122 por apostador em 2025, o equivalente a mais de R$ 1,4 mil por ano. Para comparação, os serviços de streaming de vídeo representam 0,89% do orçamento familiar e 0,5% do PIB.
Possível alívio para o orçamento das famílias
O impacto das apostas sobre o consumo é uma preocupação entre entidades do varejo. Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado no primeiro semestre, estimou que os gastos mensais com bets superam R$ 30 bilhões no país. Segundo a entidade, parte desse dinheiro deixa de ser usada no pagamento de contas.
A CNC calculou que o acesso excessivo às apostas online levou 268 mil famílias à inadimplência severa, definida no estudo por atrasos superiores a 90 dias. O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR) contestou esse dado.
Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, afirmou que o faturamento das apostas equivale atualmente a cerca de 10% da receita do varejo. Na avaliação dele, a expectativa de ganhar dinheiro ou mudar de vida estimula a recorrência das apostas e compromete o orçamento doméstico. “As bets estão tendo um impacto muito cruel para aumentar o nível de endividamento”, disse.
Serrentino também ressaltou que as apostas não são o único fator por trás do comprometimento da renda. Inflação, emprego e taxa de juros também influenciam o endividamento das famílias. Para ele, porém, há pessoas que contraem dívidas para apostar.
Arrecadação pode cair no curto prazo
O faturamento do setor em 2025 foi estimado em R$ 220 bilhões, dos quais R$ 37 bilhões seriam efetivamente embolsados pelas empresas. A regulamentação prevê o pagamento de outorga de R$ 30 milhões pelas companhias interessadas em explorar esse mercado.
Em caso de proibição, o governo poderia ter de devolver proporcionalmente valores pagos por empresas que planejavam atuar durante um período de cinco anos. A perda anual de arrecadação seria estimada entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões.
A realocação dos gastos das famílias para outras finalidades poderia, ao longo do tempo, ajudar os cofres públicos a absorver parte dessa redução, conforme a avaliação apresentada. O Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), favorável à proibição, sustenta que os efeitos das apostas alcançam também a saúde pública e defende medidas para proteger as famílias.
Setor prevê avanço da clandestinidade
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o IBJR defendem que um mercado regulado oferece mais proteção do que a proibição. As entidades avaliam que o bloqueio das plataformas poderia levar apostadores e operadores legalizados para a ilegalidade.
Estudo da ANJL estima que, se apenas os cassinos online fossem proibidos, a participação dos sites ilegais poderia passar de 41% para 82% do mercado regulado atual. Plínio Lemos Jorge, presidente da associação, afirmou que a proibição dos cassinos, com a manutenção das apostas esportivas reguladas, poderia comprometer de 60% a 70% do faturamento das empresas. Segundo ele, parte delas poderia deixar o país porque a operação se tornaria financeiramente insustentável.
Carlos Lima, presidente executivo do IBJR, disse que a proibição não faria necessariamente as pessoas deixarem de jogar. Na avaliação dele, a medida empurraria apostadores e operadores legalizados para a clandestinidade. A estimativa é de que a soma dos mercados legal e ilegal resultasse em um mercado clandestino de cerca de R$ 100 bilhões.
Lima afirmou ainda que o país deixa de arrecadar R$ 12 bilhões por ano com as bets ilegais. Ele citou uma estimativa de que o mercado ilegal corresponde a 44% do total de apostas e declarou que a proibição aumentaria a parcela da população exposta a esse ambiente.
As entidades do setor também argumentam que as plataformas reguladas impedem o uso do dinheiro do Bolsa Família em apostas, restrição que não alcançaria sites ilegais. Para ANJL e IBJR, seria necessário que o governo pagasse valores superiores às outorgas, incluindo investimentos realizados no país e possíveis danos morais.



