A relação entre idioma, pertencimento e história familiar está no centro de História de Taipei, novo romance de R.F. Kuang. A obra acompanha Lily, uma jovem americana filha de imigrantes chineses, durante um programa universitário de estudo intensivo de chinês em Taiwan.
Lily perde o avô, que ainda vivia na China continental, e passa a buscar respostas sobre a própria origem. A tentativa de se aproximar da família, porém, esbarra na resistência de pessoas que não desejam falar sobre experiências traumáticas. Para Kuang, a narrativa questiona a ideia de que conhecer o idioma e fazer as perguntas certas necessariamente dará acesso às histórias familiares.
Uma protagonista diante dos próprios limites
A personagem tem 19 anos e foi construída como uma versão exagerada da autora quando mais jovem. Lily chega ao intercâmbio com conhecimento acadêmico, mas pouca compreensão sobre as relações sociais e o mundo ao redor. Em Taiwan, suas certezas são confrontadas por um contexto novo e por aquilo que Kuang chama de pontos cegos culturais.
Uma das situações do livro ocorre em restaurantes chineses nos Estados Unidos. Lily usa o mandarim para fazer pedidos e impressiona os amigos, mas se atrapalha quando precisa explicar detalhes sobre os pratos, como alergias e o nível de pimenta. Ao voltar ao inglês, sente que perdeu a autoridade que parecia ter conquistado.
A experiência é usada para representar a identidade dividida de filhos da diáspora. A protagonista acredita que compreender plenamente a história familiar é necessário para a própria vida, enquanto as pessoas com quem conversa contestam essa expectativa.
O romance nasceu depois da morte do avô de Kuang. A escritora passou um período em silêncio, lidando com inadequação, arrependimento, vergonha e o desejo de ter dominado melhor o chinês para conversar com ele. Ela morou em Taipei por alguns meses em 2023, experiência que inspirou o livro, lançado pela Intrínseca nesta terça, 8.
Criação fora das expectativas
História de Taipei é descrito por Kuang como seu trabalho mais introspectivo. Antes dele, a autora publicou A Guerra da Papoula, Babel ou a Necessidade de Violência e Impostora: Yellowface. Também lançou Katabásis, obra que critica abusos do sistema acadêmico.
A escritora afirma que não organiza os livros segundo um projeto literário único, mas reconhece temas recorrentes: o fascínio pela linguagem, a adoção de identidades diferentes entre os idiomas e a sensação de não pertencer a uma cultura dominante. Ela também diz não escrever pensando no que o mercado ou os leitores esperam. “Se você começar a escrever de acordo com as exigências do mercado ou com o que acha que o leitor quer e não o que te empolga, então não acho que você esteja escrevendo nada de valor”, afirma.
Kuang trabalhou como tradutora e é professora de escrita criativa no College of the Holy Cross, nos Estados Unidos. Sobre a inteligência artificial, ela sustenta que uma tradução automatizada pode ser superficialmente adequada, mas não cria os novos tons de significado presentes em uma tradução artística.
Para a autora, gêneros literários funcionam como uma estrutura útil, mas não precisam limitar a narrativa. História de Taipei chega com tradução de Ana Beatriz Omuro e Yonghui Qio, em edição de 336 páginas. O livro custa R$ 79,90, enquanto o e-book sai por R$ 54,90.



