A maioria das empresas brasileiras mantém códigos de ética, canais para denúncias e mecanismos formais de prevenção de fraudes, mas enfrenta dificuldades para investigar desvios de conduta. Pesquisa da Protiviti identificou falta de orçamento e de capacitação técnica entre os principais obstáculos à apuração interna.
O levantamento ouviu 116 profissionais que atuam diretamente com investigações em organizações de diferentes portes, setores e regiões do país, entre abril e junho deste ano. Conforme os dados, 96,6% das empresas afirmam ter um código de conduta ou ética publicado, e o mesmo percentual diz contar com algum canal para reportar fraudes. Além disso, 88,8% possuem instrumento formal de prevenção.
Apesar da presença desses mecanismos, 51,7% das empresas analisadas trabalham com orçamento insuficiente para conduzir investigações de maneira adequada. Daniela Aggio, diretora executiva de Serviços Forenses e de Integridade da Protiviti, afirma que a estruturação de canais costuma avançar mais rapidamente do que a destinação de recursos para apurar os casos recebidos.
A pesquisa também aponta que 76,7% das organizações não têm um programa estruturado de capacitação técnica para as equipes responsáveis pelas investigações. Em muitos casos, os profissionais aprendem durante a prática, sem formação específica, atualização periódica ou procedimentos padronizados.
Riscos para as investigações
Segundo Aggio, a combinação de orçamento limitado e treinamento insuficiente pode resultar em apurações sem profundidade, decisões tecnicamente frágeis, falhas na coleta e preservação de evidências e maior dificuldade para lidar com fraudes sofisticadas. A falta de consistência entre investigações conduzidas por pessoas diferentes também pode deixar conclusões mais sujeitas a contestação judicial ou trabalhista.
A especialista recomenda que o orçamento seja dimensionado a partir da avaliação do risco de fraude, considerando porte, setor, complexidade operacional, exposição internacional e histórico de casos. Ela também defende financiamento contínuo para preservar o aprendizado das equipes e atualizar ferramentas.
Entre as boas práticas indicadas estão a adoção de uma governança multidisciplinar, a preservação da independência de quem investiga e a capacitação da liderança para acolher denúncias. A Protiviti recomenda ainda autonomia real para a equipe investigativa, sigilo e proteção formal ao denunciante, monitoramento de possíveis retaliações, canais externos para casos que envolvam pessoas estratégicas, julgamento colegiado em situações sensíveis e documentação rigorosa de todo o processo decisório.



