SÃO PAULO — O eleitor de centro está cansado da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e busca soluções para economia, segurança, inflação e renda, avalia Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners. Pela primeira vez, o executivo apoia um candidato: Ronaldo Caiado, do PSD.
Lacerda afirma que a eleição deve ser acirrada e decidida por poucos pontos porcentuais, mas considera o cenário ainda incerto. Para ele, a candidatura de Caiado pode ocupar o espaço de uma terceira via, embora precise ampliar sua intenção de voto, hoje entre 4% e 5%, para um patamar de 15% a 20%.
Juros e ajuste fiscal
Na avaliação do executivo, o próximo presidente terá de adotar medidas de ajuste fiscal, independentemente do resultado eleitoral. Ele considera insustentável manter os juros em 13%, 14% ou 15% por tempo indeterminado e afirma que a taxa deveria voltar a um nível de um dígito.
Lacerda relaciona o problema ao crescimento da dívida pública, que já ultrapassou 80% do Produto Interno Bruto, e à falta de credibilidade da política fiscal. Na visão dele, não seria necessário zerar o déficit em um ano, mas apresentar um plano crível para reverter a trajetória da dívida e reduzir o custo do dinheiro.
O executivo também critica a insegurança jurídica e o que considera uma deterioração do Judiciário brasileiro. Para ele, a previsibilidade das decisões e o restabelecimento da segurança jurídica poderiam melhorar o ambiente para investimentos e abrir oportunidades para o país.
O BR Partners, banco fundado por Lacerda em 2009, atua em fusões e aquisições, emissão de dívidas, derivativos, investimentos e reestruturações financeiras, além da gestão de patrimônio. Em 17 anos, movimentou quase R$ 500 bilhões nessas atividades. O comportamento dos clientes, segundo o executivo, funciona como um indicador das condições econômicas: em momentos de piora, aumentam as renegociações de dívidas e as vendas de negócios; em períodos melhores, crescem as emissões e negociações.
Lacerda diz não identificar, neste momento, uma crise de grandes proporções como a ocorrida durante o governo Dilma Rousseff. Ainda assim, considera que juros elevados por um período prolongado poderiam provocar uma deterioração forte da economia. “Deve ter alguma medida de ajuste fiscal no próximo governo, qualquer que seja ele”, afirmou.
Apoio a Caiado
Antigo filiado ao PSDB e ao Partido Novo, Lacerda está no PSD desde 2022. Ele participa de eventos e de conversas com empresários da Avenida Faria Lima ao lado de Caiado, a quem atribui experiência política e capacidade para dialogar com o Congresso.
O executivo diz apoiar o governador por duas razões: identifica nele um candidato de terceira via e acredita que o país precisa de uma alternativa à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Na avaliação de Lacerda, uma candidatura capaz de se consolidar poderia melhorar as expectativas econômicas antes mesmo da eleição, ao atrair recursos que hoje não chegam ao Brasil.
Ele reconhece, porém, que o desafio inicial é tornar Caiado e suas propostas mais conhecidos. A candidatura parte de um ambiente em que Lula e Bolsonaro são vistos como os nomes mais prováveis para o segundo turno. Lacerda cita as campanhas de Marina Silva e Aécio Neves como exemplos de candidaturas que cresceram durante o processo, mas ressalta que a hipótese não é simples nem de alta probabilidade.
Sobre a possibilidade de anistia a Jair Bolsonaro, defendida por Caiado, Lacerda afirma que o presidente eleito teria esse direito, desde que o procedimento passasse pelas instâncias necessárias. Também diz que Caiado não deveria transformar eventual decisão contrária do Supremo Tribunal Federal em confronto institucional.
Críticas a Flávio Bolsonaro
Lacerda considera que Flávio Bolsonaro representa um risco institucional maior por temas como questionamentos sobre as urnas eletrônicas, vacinas e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos em defesa de sanções contra o Brasil. Para o executivo, esse tipo de abordagem desvia a discussão dos problemas econômicos e das propostas para o país.
Ele também critica a tentativa de levar à campanha temas relacionados a Donald Trump e Javier Milei. Segundo Lacerda, a estratégia de mobilização política usada nos Estados Unidos não se adapta ao Brasil e pode afastar o eleitor de centro, que prefere estabilidade, segurança, inflação sob controle e aumento de renda.
O executivo afirma já ter votado em Bolsonaro e em Lula e diz querer o fim da disputa permanente entre os dois campos. Para ele, a campanha deveria concentrar-se em juros, recessão, segurança pública e miséria.
Lacerda avalia que o Brasil atravessa o encerramento de um ciclo político. Mesmo em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, afirma que as instituições do país são maiores do que a figura do presidente. Também espera renovação política com governadores que poderão disputar as eleições de 2030.
Ao apoiar Caiado, Lacerda diz contribuir com ideias e contatos para o partido. É a primeira vez, segundo ele, que participa diretamente de uma campanha.



