BRASÍLIA — Uma questão de ordem apresentada por Flávio Dino impediu que o Supremo Tribunal Federal avançasse, na sessão do dia 15, sobre o mérito dos indícios reunidos pela Polícia Federal a respeito da relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A proposta de Dino foi analisar, em uma mesma deliberação, pedidos de investigação envolvendo Moraes e André Mendonça.
A iniciativa teve apoio de Gilmar Mendes e ocupou o debate da sessão. Com isso, não houve discussão específica sobre os elementos coletados pela PF a respeito da atuação de Moraes e de seu vínculo com o banqueiro. O relatório foi produzido a pedido de Mendonça, relator do caso Master.
Diálogos e contrato
O documento registra mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes. Em uma delas, o banqueiro pergunta se deveria deixar o país na antevéspera da prisão e pede que o ministro interceda junto ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O relatório também aponta que Moraes editou um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes. O conteúdo do documento foi revelado no último dia 1º.
A articulação no STF incluiu manifestações públicas, conversas entre ministros e medidas processuais. Gilmar, Dino e Cristiano Zanin formam o grupo contrário à abertura de investigação contra Moraes por causa da relação com Vorcaro.
Cobranças antes da sessão
Nos dias anteriores à sessão, Gilmar enviou mensagens a Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Em 8 de setembro, questionou Fux por um voto registrado na Segunda Turma a favor da liminar de Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da direção da PF. Fux encerrou a conversa pedindo que o colega não o incomodasse.
Com Nunes Marques, Gilmar afirmou que ele e Fux eram servis e submissos a Mendonça. Também pediu que o ministro deixasse processos relacionados ao Master e a presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Nunes Marques respondeu que estava disposto a abrir suas contas, pediu respeito e bloqueou Gilmar.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro citam um pagamento de R$ 500 mil ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. O ministro declarou impedimento e não participa da decisão sobre a abertura de investigação contra Moraes. Ele afirmou que não recebeu recursos do Master e que não votou em casos de interesse do banco. Também disse que não poderia participar do julgamento enquanto preside o TSE, por causa de possíveis repercussões eleitorais.
O material apreendido pela PF menciona ainda Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, a quem Vorcaro teria pedido ajuda em processos. As mensagens indicam também que o banqueiro pagou ingressos para familiares do advogado em um camarote VIP na Sapucaí, durante o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2025.
Confronto entre ministros
Durante a sessão, Gilmar acusou Mendonça de agir com covardia e desfaçatez por ter afastado Andrei Rodrigues da PF e solicitado o relatório que reúne informações sobre Moraes. Também chamou o colega de boneco eleitoral.
Dino questionou a credibilidade de Fux e afirmou que o ministro era citado em diálogos de Vorcaro. Fux negou ter trocado mensagens com o banqueiro e disse nunca tê-lo visto. Dino respondeu que Fux teria de esclarecer o assunto em momento próprio.



